quinta-feira, 27 de abril de 2017

O outro olhar da natureza*













Enquanto os pássaros cantam, os carros buzinam. Enquanto a lua canta, os guardas de trânsito desafinam. Enquanto os monumentos sem carne e osso, pálidos e parados, desencontram-se da História, os homens desvalidos esmolam qualquer momento de vida.
Enquanto pulsa o asfalto estúpido e em fogueira tosse em flagrante contradição de seu calor com o lado humano das ruas, as curvas bem delineadas de paixão e amor em nós sufocam-se sem o ar que há séculos habitou por aqui.
Enquanto as forças mal armadas de nossa sociedade oprimem qualquer verbo proativo, dentro de nós a fé e a esperança nutrem-se de si mesmas e transmutam-se em novas árvores na memória dos que ainda se sentem úteis e amáveis.

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* Um outro olhar sobre nós

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terça-feira, 25 de abril de 2017

Para quem tem um filho na estrada...
(... descendo do Centro-Oeste para o Sul)














Bom dia, filho!

As pessoas são um reflexo do que somos diante delas. Pai.

Boa tarde, filho!

Nossos pontos de vista são ângulos de visão subjetivos... mas a realidade é objetiva... O que fazer?!  Pai.

Boa noite, filho!

O verdadeiro e mais profundo abrigo não está na luz do dia que ilumina nossos caminhos e, sim, na escuridão que obriga nossa visão interior a brilhar mais forte.





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quinta-feira, 20 de abril de 2017

O vestido manchado de Marilyn Monroe
ao lado da cama de John Kennedy


http://astronomiareal.blogspot.com.br












Nunca imaginei que estaria estabelecendo uma relação entre Bob Dylan e Joãozinho Trinta.
Mas por quê?
O cara de classe média norte-americana, branco, bonito, rico é uma coisa. Outra coisa é o cara baixinho, feio, no final desconjuntado pela doença... e brasileiro!
Teriam Aleijadinho e Juan Miró algum parentesco em suas manifestações individuais de arte e cultura e história?!
Prefiro abandonar estas comparações absurdas (sob o ponto de vista de dias passados) porém bem atuais em termos do que estamos vivendo neste início de século e fim de mundo.
Ouço alguém cantando...
Por que alguém canta assim?! Não parecem canções de ontem; parece o que ainda vão cantar os homens do futuro ou o que nunca terão tempo de cantar...
Ganha-se quanto em dinheiro enquanto esse canto se aglomera como um hino que se dirige a lugar nenhum?
Ganha-se o quê?! Ganha-se oxigênio como espadas defendendo os pulmões da má sorte dos carros, caminhões e aviões que transportam a ânsia geopolítica de animais pensantes?


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terça-feira, 18 de abril de 2017

Amor é que nem comida















Amor é que nem comida: quanto mais quentinho, melhor; mas se esquentar demais também, queima muito... e aí... ai!

Se não tiver o amor que a gente quer em um determinado lugar ou em uma determinada pessoa, o que a gente faz?!

Chorando, sorrindo (ou de um jeito frio) vamos em frente não “procurando” propriamente, mas seguindo a vida e tudo que ela nos oferece, embora as conquistas, as expectativas, as surpresas sejam sempre inevitáveis, tanto quanto qualquer outro fenômeno surpreendente do Universo.

Tanto o amor quanto a comida devem estar sob a égide do nosso lado racional, senão a gente está ferrado; porque não nascemos só para o “muito frio” ou “muito quente” e, sim, para o que nos permitirá continuar a sequência inevitável de ser.

Não é só a língua que queima durante uma garfada de comida quente, a língua também “queima” quando o beijo causa a erupção do que está acima de nosso lado humano.

É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte!” (Caetano Veloso)


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quinta-feira, 13 de abril de 2017

No caminho com Beltolt Brecht













Há aqueles que lutam um dia e por isso são muito bons!
– Sou aquele que dá esmola.

Há aqueles que lutam muitos dias e por isso são muito bons!
– Sou aquele que alimenta as pessoas com conhecimento.

Há aqueles que lutam anos e são melhores ainda!
– Sou aquele que, junto ao povo, abandona a cruz
E abriga-se à luz de um livro.

Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis
– Sou aquele que você ainda vê passando
Na estrada que nunca passa.


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terça-feira, 11 de abril de 2017

Artistas sem mídia e sem medo













Olha só!

Esses caras não sabem o que estão fazendo. Se soubessem, pelo menos (ou no mínimo) estariam envergonhados, mesmo sem devolver tudo que tiraram de nós.

Envergonhados?! Rsss... Se tivessem um pouco de humanidade, nunca se sentiriam assim, né verdade?!

Somos artistas do povo, cheios de problemas, cheios de contas a pagar, cheios de não receber nada, por sermos artistas criativos e trabalhadores honestos, sensíveis às causas populares.

Cheios de esquinas, cheios de promessas mal resolvidas e tricotagem que nunca chegam ao fim. Cheios de aventuras forçosas e utopias sem empurrões.

Quem somos nós?! Onde estamos?!

Estou lendo Mario Vargas Llosa (Sabres e Utopias)... Deixei um pouco de lado Herman Hesse (A arte dos ociosos)...

E você, pobre e desorientado leitor que nem eu, diria: o que tem a ver um livro com o outro? Não sei. Estão rolando aqui pelo meu quarto. De vez em quando pousando em minhas mãos.

Já disse uma vez o meu amigo e filósofo e minimalista e mímico Jiddu Saldanha: “Serei feliz, nem que seja por vingança!”




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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Pauta para um caderno em espiral

http://sabetudo.xpg.uol.com.br/quanto-maior-a-idade-maior-a-tristeza.html















Nós dois conversávamos muito no estúdio de arte ao lado do quarto daquela senhora de idade avançada, que presumíamos estar pronta para "partir para o andar de cima", sendo pouca a sua respiração, lento o seu abrir e fechar de olhos e sua voz há muito não resistia ao silêncio...

Conversávamos... mas sem perceber que ela nos ouvia intensamente. Mais ninguém havia dentro daquela casa modesta num raro subúrbio calmo do Rio de Janeiro.

Nós discutíamos filosofia oriental: Budismo e Taoísmo era nosso prato predileto, regado à batida de limão sem açúcar e sem gelo. Ela ouvia lá do quarto e pensava:

Por que precisam falar tanto?

Nós continuávamos falando dos opostos que se justificam, da materialidade como índice de energização explosiva do pensamento... E as paredes equalizavam tudo para ela:

Por que precisam pensar tanto?

Eu insistia com o Beto que nosso futuro jornal deveria buscar uma síntese de tudo que se publicava hoje em dia. Ele concordou e puxou uma folha de papel, mostrando-me o primeiro esboço da capa.
As paredes riam de nós, fotografavam tudo e a senhora sorriu sem mexer os lábios:

É... Parece que eles resolveram calar a boca e descobrir alguma coisa!

Após um breve silêncio, acrescentei mais alguma sugestão. O Beto concordou e praticamente a capa do jornal estava pronta.

No quarto, a mulher tossia feito espuma tentando sair de um cano entupido:

Meu Deus, será que não percebem que já deveriam estar fazendo a página seguinte?

Eu e Beto já estávamos na Flor da Terceira Idade* (em torno dos 50...) e tomávamos cuidado para não cair no abismo das sucatas das ilusões perdidas na juventude. Discutíamos isso, enquanto a transparência das paredes nos traduzia:

Eles não podem esquecer o futuro, a forma desafiadora do que ainda não possui forma.

Sim – dizia Beto o céu e a terra abrigam-se mutuamente. Temos de saber pastorear nossas sementes para que o jornal mantenha-se sempre dentro de um círculo dinâmico que atenda às expectativas de um povo sofrido, ao mesmo tempo alegre e observador.

Eles poderiam registrar o fato de que, sob o ponto de vista do circuito cósmico, muito antes de inventar a roda o homem já vivia sobre e em movimentos circulares.

Pronto! Nós três (eu, Beto e a vó dele) já tínhamos o enredo pronto para uma história em quadrinhos ou talvez um conto: dois artistas cinquentões, uma mulher de terceira idade... Mas faltava ainda alguma coisa...

Nós três ficamos espantados com nossa falta de atenção, quando um quarto personagem entrou em cena de forma repentina, mas fechando de maneira óbvia a última cena desta história: recém-chegado do quintal, onde brincava de eternidade e sonhos, meu filho entrou correndo nesta página e gritou absoluto:

Paiêêêê! Lá fora é mais frio do que aqui dentro!”

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* Expressão cunhada em meu livro A VIDA QUE COMEÇA AOS 60... OS NOVOS VELHOS, Ano 1 Editora.


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terça-feira, 4 de abril de 2017

Futuronomia


http://construindohistoriahoje.blogspot.com.br










Pra mim (e certamente para muitos políticos e economistas) no futuro todo governo será de empresas, nunca mais de homens e ideias e livros (que me perdoem os antigos pensadores como eu mesmo).
Os níveis alarmantes de corrupção já anteveem que as placas tectônicas do dinheiro estão se mexendo, dolorosamente antecipando o futuro.
Atrás de cada movimento público que se faz há sempre o nome de grandes empresas, por enquanto apenas patrocinando de forma paternalista.
Não há o que reclamar dos homens públicos que se “associam” àqueles que dominam os lucros do trabalho escravo contemporâneo camuflado principalmente pela mídia grande e seus generosos artistas e desportistas que divulgam a “força” de seus produtos?!
Até que um dia esses homens sejam absorvidos pela avidez jurídica e politicamente correta do chamado GRANDE CAPITAL que se globaliza ferozmente até tornarmo-nos unos em nossa tragédia tecnológica.
Aí, já era!
Ou ainda conseguiríamos, em tempo, entender como o homem dominou o fogo pela primeira vez e, depois da Revolução Industrial, devastou nossas consciências nos dominando com sua luz necessária mas com seu incêndio voraz?!
Sei não...


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