sábado, 30 de setembro de 2017

Canto de liberdade
(aos pés de cruz nenhuma)













Sendo um estilo de samba onde existe uma questão (refrão) e uma resposta (coro), o Partido Alto nos remete a uma convocação para que cantemos juntos e, por consequência, vivamos juntos.

A variação permanente no desenrolar da letra contrasta com o tom monocórdio da melodia, fazendo-nos lembrar até dos mantras indianos e outros ritos musicais onde a repetição eleva os espíritos a patamares superiores de consciência.

O refrão é repetido com garra e insistência (terá sido mera coincidência a aparição do “eu” também aqui?!):

Fique tranquila morena que a vida é pequena
EU VOU VOLTAR
Nunca vou esquecer sua pele macia e serena
EU VOU VOLTAR
Você é a lira que delira no brilho da cor da açucena
EU VOU VOLTAR
Você é o vento que, quando assobia, parece que acena
EU VOU VOLTAR
[Trecho de MAR DE AMOR,
João de Abreu]



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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

TERCEIRA PARTE

Uma questão de coragem













Quem sou eu?! Difícil responder a esta pergunta. Tudo e todos que existem, existem porque estão em movimento e isso não é novidade alguma desde os antigos gregos que começaram a distribuir entre eles elementos não estáticos.

Entre os africanos é notório também o saber olhar para o céu, saber decifrá-lo não através da razão, como nós ocidentais, mas com uma perspectiva mitológica enraizada na terra, no céu, na água e no ar que transcendia a questão meramente humana de “ser ou não ser”.

Esse olhar certamente permeou étnica e culturalmente o Partido Alto na forma de samba que mais se aproxima da origem do batuque angolano, do Congo e outras regiões vizinhas.

Modernamente, o estilo Partido Alto com base em versos realmente improvisados vem caindo em desuso, não só pela diminuição de rodas de samba em sua concepção original, como pela facilidade atual de se repetir versos pré-elaborados, gravados e difundidos pela tecnologia da comunicação deste século XXI.

A questão do “eu” não é meramente filosófica, do ponto de vista de alguém olhar para si mesmo e tentar extrair de forma abstrata a essência do que existe no mundo a partir de uma ótica pessoal.

Candeia, no documentário PARTIDO ALTO, de Leo Hirzmann, diz que este é a expressão mais autêntica do samba. Aí, ele deixa clara a categoria do “eu” que se mostra 1) evidente; 2) de forma velada; ou 3) desmembrando-se em “meu”.


EU SOU UM HERÓI    (João de Abreu)


Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Não consigo aturar nem mais um patrão
Que quer só mostrar que é o dono do mundo
Ou eu fico duro, ou viro ladrão
Ou só pra rimar eu me chamo Raimundo

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Os vizinhos já estão a pensar mal de mim
Fofocam que eu sou mafioso ou gay
Eu não penso que a grana vem do capim
Eu faço magia, não sei de onde vem

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Vagabundo não é mais aquele ocioso
Pode ser um distinto bem desempregado
Quem sabe a gente acostuma com osso
Onde a vida murmura um som desafinado

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Na rua as pessoas só pisam em buracos
Achando que o mundo não vale um vintém
Fazendo castelos por sobre barracos
E dizendo que a crise não vai muito bem.

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

O meu pai, no passado, não cansou de pedir
Para eu ser um médico ou então militar
Mas não conseguiu me fazer redimir
Pois ele era pobre e não pode pagar

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Eu só faço arte, não é malandragem
Não é por orgia, pilhéria ou um bem
Canto que a vida anda de estiagem
Poeta, herói, eu sou João Ninguém

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Cada dia que eu pego uma condução
Eu pago um preço que sempre é demais
Eu não ganho nada fazendo canção
Sendo assim, eu só pulo pela porta de trás

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Não arranjo emprego em lugar nenhum
Eu vou no Maraca sem Zico ou Mané
Chego prum amigo: “Me empresta mais um”...
E assim vai a vida como Deus quiser.

(CONTINUA)


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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Segunda Parte - Candeia












Candeia foi um dos nossos melhores versejadores... versificadores... ou, como melhor nos cabe aqui, um dos nossos melhores partideiros.

Muitos críticos não conseguem estabelecer um paralelo exato entre o improviso do Partido Alto e o improviso da Literatura de Cordel. Azar dos críticos, porque ambos se revestem de valores estéticos populares inalcançáveis por estes críticos, geralmente parte da elite social, política e econômica do país, que não passam de importadores de comportamentos...

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra; e não cabe aqui discutir isso (basta pesquisar "googlezando", como diria um amigo meu... Até porque, um país tão rico etcnoculturalmente cada um puxa a brasa para a sua sardinha...


Testamento de partideiro

Ao meu amor deixo o meu sentimento
Na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo o bom exemplo
Na paz do Senhor
Deixo como herança a força de vontade
Na paz do Senhor
Quem semeia amor deixa sempre saudade
Na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo o meu pandeiro
Na paz do Senhor
Honrei os meus pais e amei meus irmãos
Na paz do Senhor
Mas aos fariseus não deixarei dinheiro
Na paz do Senhor
Pros falsos amigos deixo o meu perdão
Na paz do Senhor

Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal
Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal

Mas se houver tristeza, que seja bonita
Na paz do Senhor
De tristeza feia o poeta não gosta
Na paz do Senhor
E um surdo marcando o choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta, mas não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor

E como levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra população, na paz do Senhor
E como eu levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra população, na paz do Senhor


Fica nítida a frequência dos pronomes possessivos “meu”... “minha”... é o “eu” egóico, individual e possivelmente consciente de sua temporalidade aqui na Terra. O poeta Candeia transfere com humildade, no refrão, para Deus, como sendo Eterno, Maior e Superior às fraquezas humanas.

Se estamos escrevendo certo ou errado, isto é algo muito relativo, porque existem diversos contextos onde o acerto ou o erro vai flutuar em vários sentidos.

Podemos nos arriscar, inclusive, a reconhecer que nos encontramos, agora, entre uma gramática oficial, aquela que nos oprime com seus medalhões literários e linguísticos, e uma gramática flutuante, em permanente mudança, tal como os versos imprevistos do Partido Alto.

Nesse sentido, nos encontramos diante de um fenômeno de resistência cultural: versos livres... mais do que livres: imprevistos.
“Licença poética” não é necessária diante de mentes brilhantes como a de nossos mestres do samba, que caminham junto ao povo, longe das catedrais, das academias e das universidades.

A seguir, mas um espaço aberto para o pronome “eu”...

(continua amanhã)




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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PARTIDO ALTO

ENTRE A REPETIÇÃO INTENCIONAL (rotina - refrão)
E O IMPROVISO INESPERADO (liberdade - versificação)

João de Abreu Borges












                        PRIMEIRA PARTE

A roda de samba - A volta da vida - A vida de bamba

O grande poeta modernista (terceira geração) brasileiro Dante Milano escreveu por volta da década de 1930: “Eu canto a vida / A verdadeira vida / Não a que é vivida / Mas a que está perdida / A que é apenas sonhada”.

Começamos nossa reflexão, então, questionando qual a fronteira (se é que existe) entre sonho e realidade, e fizemos uso acima dos versos do genial poeta conterrâneo nosso.

Se considerarmos que ambos (sonho/realidade) são fugazes, então não pode haver fronteira nenhuma, do contrário essa fugacidade não se transformaria em transitoriedade permanente, tais como são os versos improvisados do Partido Alto, estilo a que nos propomos a abraçar aqui em nosso texto.

Quando personagens, como Candeia, Geraldo Babão ou qualquer outro gênio do gênero, se reúnem e pegam seus instrumentos, destes o único que não sabe exatamente o que vai expressar é a voz, porque os versos aguardam em algum lugar da alma do sambista sua vez de entrar em cena.

As letras se metamorfoseiam... as sílabas transformam-se em palavras... e as palavras vão tomando conta do ar quase que à revelia de quem canta, já que formarão frases semiautônomas na língua do improvisador.

Se alguém chegasse para o Padeirinho, por exemplo, e perguntasse que versos usaria ou que rimas distribuiria pelo canto, ele só saberia responder depois que o Partido Alto começasse.

(continua)


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Davi e Golias glamourosos












Diz o menor:
– Calma aí, vamos conversar! Que tal se unirmos a minha astúcia à sua tranquilidade, hein grandalhão?!
O grandalhão:
– Mas você viu a cor das peças íntimas da minha mulher!"
Ao que o baixinho respondeu:
– Mas que culpa tenho eu de ser tão baixinho, além do que sou estrábico e daltônico, daí...
O grandalhão:
– Tá bom! Mas está vendo a minha pata da direita erguendo-se?!
– Sim, mas por favor, não me agrida!

– Não, eu vou é te fazer um carinho em nome do direito de todos serem diferentes, apesar de semelhantes em suas fraquezas!




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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Elvis Presley, um conto de fadas?!
(Não é culpa da formiga nem da cigarra...)



Os contadores de histórias (todo poeta, no fundo, é um, e eu que o diga) devem viver encafifados até hoje, não com a morte inexplicável (do ponto de vista dos corações que começaram a dançar a música negra do Mississipi na pele de um branco extraordinário, visionário e futurista.).

Por que me refiro aos contadores de histórias?! Porque entre a formiga trabalhadora e a cigarra cantadora, ninguém nunca admitiu a possibilidade de haver um interregno, como diriam os mais intelectuais.

A Formiga um dia morreria de tanto trabalhar... A Cigarra, de tanto cantar...

Mas ele, Elvis, desfez esse engano de um conto de fadas e, assim, tornou humano este mesmo conto. Por quê?!

Por que rebolou?! Por que era branco de voz negra?! Por que nasceu no Mississipi?! Por que era lindo, do ponto de vista das meninas desta época e como modelo para os jovens, como eu, que tinham sonhos e um desses maiores sonhos era ser um “elvis Presley”?!

A humanidade precisa de Elvis’s, Einsteins, Galileus... Caras que sobrevoaram o futuro e trouxeram uma imagem nova do Universo, seja social, político, econômico, artístico, etc e tal.

Quanto à formiga e à cigarra, ambos seguiram seus destinos, mas Elvis não seguiu... abriu novos destinos para toda uma geração pós-guerra, que aprendeu a duvidar de limites, de fronteiras, conceitos “pré”...

E isso tem um preço e um valor. O preço é a própria extinção (cigarra explodindo de canto OU DE TANTO CANTAR) e a perpetuidade da espécie. O valor... bem, o valor é inconsciente, inconcebível, inimaginável pelo próprio condutor desta ideia...

Só quem sobrevive ao tempo não é o indivíduo, é o grupo a que ele pertence. E este grupo insere-se no “Grande Tempo”, teoria de Mikhail Baktin, por exemplo, que transfere para o mundo histórico temporalmente o que qualquer cidadão como Elvis, forte demais para si próprio, um sentimento coletivo (Jung?!) insustentável para uma época.

Adeus, querido super-herói de minha adolescência! Não quero (até mesmo porque não conseguiria...) trabalhar tanto e em vão como as formigas, nem cantar o canto da explosão das cigarras.

Meu pulmão se enche. O coração inflama. A mente sempre reclama... mas não vou deixar que só a História te ame. Eu sou um cidadão e, como tal, também te amo e, por muito menos do que você fez, morrerei também...

Morreremos...



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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Artistas sem mídia e meio dia

"Pincelada Tridimensional", de Marcelo Nitsche (2000)










Olha só!
Esses caras não sabem o que estão fazendo. Se soubessem, no mínimo estariam envergonhados, mesmo sem devolver tudo que tiraram de nós.

Envergonhados?! Rsss... Se tivessem um pouco de humanidade, nunca se sentiriam assim, né verdade?!

Somos artistas do povo, cheios de problemas, cheios de contas a pagar, cheios de não receber nada, por sermos artistas criativos e trabalhadores honestos.

Cheios de esquinas, cheios de promessas mal resolvidas e tricotagem que nunca chegam ao fim. Cheios de aventuras forçosas e utopias sem empurrões.

Quem somos nós?! Onde estamos?!

Estou lendo Mario Vargas Llosa (Sabres e Utopias)... Deixei um pouco de lado Herman Hesse (A arte dos ociosos)...

E você, pobre e desorientado leitor que nem eu, diria: o que tem a ver um livro com o outro? Não sei. Estão rolando aqui pelo meu quarto. De vez em quando pousando em minhas mãos.

Já disse uma vez o meu amigo e filósofo e minimalista e mímico Jiddu Saldanha: “Serei feliz, nem que seja por vingança!”


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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Amnésia, Alzheimer ou Amor

pt.wallpapersja.com










Sei não, ando esquecendo algumas coisas... tipo procurar o óculos quando ele está em cima da cabeça... as chaves da casa quando está em minhas mãos... o próprio silêncio, quando falo demais... o boné, quando ele já está na mochila... ou os dois, quando estão pendurados pela alça em meus ombros... ou até mesmo a solidão, quando estou em meio a tanta gente do centro da cidade do Rio de Janeiro...

Sei não... Lembro do Belini, primeiro brasileiro a levantar a então “Taça do Mundo”, grande zagueiro central do antigo screcht nacional de 1958 que vingou o maracanaço de 1950 diante do Uruguai, na final de 1x2 para os adversários, diante de 200 mil pessoas presentes no estádio.

Belini ficou, mais ou menos, os últimos 15 anos de sua vida sendo tratado como portador de Alzheimer, devido ao uso excessivo das cabeçadas na bola por ser zagueiro. Quando faleceu, os médicos constaram, após biópsia, que ele não era alzheimeriano e, sim, sofria de lesões adquiridas ao longo dos anos como jogador.

Lembro de outra pessoa. Um amigo que só lembrava de mim, porque tocamos violão juntos durante muitos anos e, curiosamente, ele chegou a esquecer a maioria dos acordes, mas por que nunca esquecia (em tom maior) o Dó e (em tom menor) o Lá? E conseguia tocar músicas de samba e bossa nova, ambos de harmonia complicada, apenas na sequência primária desses dois sambas?! Como ele conseguia resumir CORCOVADO (Tom Jobim), por exemplo, a uma sequência natural de Lá menor?!

Bem, agora não quero esquecer o último item do título desta crônica...

Nunca vou esquecer você! Você é como a música: memória remota que, geralmente, nunca morre para um velhinho... ainda estou na “flor” da Terceira Idade, mas...


Posso até esquecer um dia, mas o brilho interior diante de você será eterno.


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Amor é que nem comida















Amor é que nem comida: quanto mais quentinho, melhor; mas se esquentar demais também, queima muito... e aí...

Se não tiver o amor que a gente quer em um determinado lugar ou em uma determinada pessoa, o que a gente faz?!

Chorando, sorrindo (ou de um jeito frio) vamos em frente não “procurando” propriamente, mas seguindo a vida e tudo que ela nos oferece, embora as conquistas, as expectativas, as surpresas sejam sempre inevitáveis, tanto quanto qualquer outro fenômeno surpreendente do Universo.

Tanto o amor quanto a comida devem estar sob a égide do nosso lado racional, senão a gente está ferrado; porque não nascemos só para o “muito frio” ou “muito quente” e, sim, para o que nos permitirá continuar a sequência inevitável de Ser.

Não é só a língua que queima durante uma garfada de comida, a língua também “queima” quando o beijo causa a erupção do que está acima de nosso lado humano.

É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte!” (Caetano Veloso)


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terça-feira, 1 de agosto de 2017

A libertação do fim


excellencestudio.com.br













Às vezes penso que cada passo que damos obedece ao ritmo da velha e nefasta tríade: primeiro passo: presente; segundo, passado; terceiro, futuro. E, assim, sucessivamente...

(Gosto muito de reticências. Elas permitem ao leitor dar continuidade à linha de raciocínio do autor e a descortinar novas paisagens, à revelia desse mesmo autor.)

Mas vamos de trás pra frente, ok?! Eu concordo com aqueles que acham que devemos deixar o melhor por último (aliás, se você se dedica a um objetivo, deixando de lado paranoias de bons resultados, neuroses de foco excessivo, etc., realmente o que vem por último é a melhor parte do bolo).

Este terceiro passo, o futuro (infinito), é nublado porque aqui entram diversos fatores basilares de conduta: religião, filosofia, e até crendices.

O segundo passo, o passado (fim), é uma sucata que pode até servir como matéria prima de adubo aos pastos, de renovação à natureza e até recriação de erros para novos investimentos na vida. Mas só!

Quanto ao presente ... Podemos, sim, materializar-nos em Nirvana aqui e agora, neste lugar e nesta hora. Ou o paraíso na Terra, como preferirem. Ou em encontro inesperado consigo mesmo, como podem querer outros.

Este é o passo presente. Geralmente, inconsciente porque é espontâneo e não está preocupado em se impor ao anular um ou outro momento estranho ao de agora.


Estamos onde estamos. Somos o que somos. Fazemos o que fazemos. Olhamos com nosso próprio olhar. Assim é o nosso nirvana pessoal... ou o paraíso na Terra... ou self service psíquico.


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alfabetagametizando
















Quando eu era pequeno (e não pensava muito, só vivia, deixando esta tarefa para minha mãe e meu pai), a grafia tinha certo sabor diferente da que eu sentia em um prato de comida.

Parecia que cada letra tinha seu próprio significado e que não era apenas um signo ou símbolo. O caderno de caligrafia abria-se como um horizonte de possibilidades morfológicas letra a letra.

As curvas do a eu, ainda impúbere, já pressentia que muito prazer me esperava pela frente no futuro. O i minúsculo me lembrava um jogador de futebol equilibrando a bola ou mesmo cabeceando para o alto. E o J maiúsculo, abrindo o espaço em meu nome, que tinha uma curva tipo a e ainda sustentava a bola na cabeça, sugerindo visivelmente a junção de um bailado e um malabarismo?!

Mas, hoje, ao escrever, o pensamento é muito veloz e a grafia perdeu seu encanto primário, submetendo-se a um papel de coadjuvante de uma semântica do século XXI, sem o menor comprometimento com a arte de ser feliz entre um lápis e uma caneta esferográfica.


Bons tempos! Bons tempos!


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terça-feira, 25 de julho de 2017

Canção sem o menor constrangimento

id.gutbilder.com













Ai, quem dera ter você aqui perto para cuidar de mim não tanto como cuida do teu cachorro... Puxa vida, eu não tô legal, sabe?! Não estou em mim, as coisas não estão se encaixando em mim, pior ainda assim longe de você.
Quisera você pudesse soprar alguma coisa pelos seus lábios que eu tanto beijo e que tanto lambem meu corpo na cama... quisera fôssemos um só, aí sim eu estaria com tudo dentro de mim... eu voltaria para mim!
Eu sei muito bem o que se passa, mas saber não é tudo: eu precisaria aprender a passar junto a tudo. Ou seja, sentir o que está acontecendo não só em mim como também em tudo.
Depois que isso passar, vou me tornar mais crescido, mais humano, mais consciente do que aproxima todos nós em humanidade. Mas dói tanto quanto o afastamento da borboleta do casulo... da semente da terra... do olhar desenfreado da íris indo ao encontro do voo do Universo.
Tudo bem, eu só quero chorar em paz, mesmo que você ainda não tenha visto isso. Mas saiba que eu também choro, também oro, também busco clareza na turbulência de um pranto sincero pelo que a gente não tem, pelo que a gente procura ter, pelo que a gente até tem mas não reconhece como o verdadeiro valor do que é ter alguém ou alguma coisa segurando nossas mãos ou atraindo nossos olhos.
Então, eu choro...



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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Marcando o caminho com migalhas

http://priscilamanavaz.blogspot.com.br/









A sensação que eu tenho hoje, 2017, é que as elites ainda repetem a mesma estratégia dos “bondosos” colonizadores do Brasil que estimularam a guerra entre as tribos africanas do século XVI ao século XIX para “extrair” os escravos que lhes serviriam como animais aqui em nossa pátria amada.
Li recentemente em um mural do meu bairro:  “Um pobre mata outro pobre para comer as migalhas dos ricos”.
A violência entre os homens parece ser um bom investimento para as classes mais privilegiadas. Enquanto os pobres, os miseráveis e os zumbis arrastam-se por aí ou trabalhando, ou pedindo esmola ou morrendo em vida, os investimentos em publicidade, seja de empresas ou de artistas e políticos, é cada vez mais vigorosa.
Vide a violência maior que é a corrupção política (vindo atrás os investimentos estupidamente gananciosos dos grandes capitais). Enquanto aqui embaixo nos destruímos com as mais diversas formas (sutis ou não), os ricos cada vez mais alucinam a claridade dos dias sem deixar nem um pouco de esperança para nós.
Só migalhas...



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terça-feira, 18 de julho de 2017

Balada do lado sem luz***

br.123rf.com














Em essência, o ser humano vira as costas para a liberdade. E o que é a liberdade para a maioria do gado humano? É o pavor da individualidade; por extensão, o medo da solidão e o grito tempestuoso do silêncio.

A rotina entra aqui como uma válvula de escape para que não se tenha que conviver consigo mesmo enquanto indivíduo livre e designado pela Natureza como inteligente e criativo.

As razões da “luta pela sobrevivência” são uma forma nublada e esquálida de se erguer apenas com bengalas e muletas do tipo “salário”, “patrão”, “colegas de trabalho”, “sacrifício da viagem”, acordar já "respirando trânsito", “bom-dias” quase inaudíveis de tão mecânicos, etc, etc.

Na década de 1970, o compositor João Ricardo, do grupo Secos & Molhados, resumiu bem esta linha de raciocínio neste belo refrão: “O patrão nosso de cada dia”.

Sonhar... para quem segue seu caminho de escravo de qualquer rotina, sonhar é querer um dia ter esporas mais brilhantes, cadeados reluzentes e algemas de ouro.

Enquanto isso pássaros cantam para os distraídos; o vento assobia para os não comandados; o céu anuncia um novo horizonte vertical para os que se reconhecem com asas para voar em seu coração...

***
Título de uma obra prima musical de Gilberto Gil.



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sexta-feira, 14 de julho de 2017

A volta dos que não foram
(Significante: semantema; significado: morfema)

http://divagacoesligeiras.blogs.sapo.pt/206177.html













Quando conversamos – por incrível que pareça – o que menos importa é a palavra e o seu significado. Hoje em dia a gestualidade (expressão) vai dar sentido a um termo no momento em que se torna um meio de comunicação.
É o tom que damos ao que falamos que vai refletir, em sua intensidade, o sentido do que queremos dizer.
Dia desses encontrei um amigo, perguntei: “Lembra do China” – um ex-vizinho nosso. Eu só queria dizer que o havia encontrado e ele estava bem.
Mas... dei muita ênfase à minha pergunta e isto o impressionou de tal maneira, que o pegou de surpresa e, como a maioria dos mortais, reagiu emocionalmente:
– Morreu?!
– Não, meu amigo, quem morreu foi a minha vontade de continuar nossa conversa.

Por que o ser humano, trágico por excelência, tem sempre que dar ou esperar uma notícia ruim que o emocione, o remexa por dentro, o deixe feliz, sentindo-se vivo como uma forma de não-morte?!


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