terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sutis aparências










Caras... faces... semblantes... não são apenas uma questão de nomenclatura, porque há uma diferença, mesmo que sutil, entre as três formas de mostrarmos o que estamos sentindo em silêncio ou enquanto falamos.

Eu poderia me perder no tema central desta pequena crônica lembrando que os antigos egípcios chamavam os olhos de as janelas da alma; e eu complementaria dizendo que a nossa alma é a janela do mundo.

Mas...

Uma cara pode não ter olhos, bocas, etc. Pode ser a cara de uma cidade, de um momento, de uma lembrança. Uma face, até certo ponto, também, mas já dá uma ideia de que transcende apenas o aspecto físico de uma cara.

Face apega-se quase que exclusivamente ao ser humano, embora pode-se dizer por exemplo a face oculta da Lua, ao invés de lado oculto.

Através da face, expressam-se os cinco sentidos que nos permitem compreender o que ou quem está diante de nós e quais são suas intenções.

Se o leitor acredita em terceira visão... intuição... espiritualidade... aura, etc; ou apenas em uma ou duas dessas palavras, então sabe – em sã consciência – qual a definição para semblante.






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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A minha vila, a minha vida

AliExpress.com











A vila onde moro é cheia de personagens não diria inacreditáveis (até porque se existem é porque dá para acreditar), mas são palpáveis, tangíveis em meu dia-a-dia.
Tenho um vizinho que estudava saxofone e desistiu, coitado! Ele tinha de ir pro meio do mato pra estudar, porque as pessoas eram preconceituosas, impacientes e avessas às coisas e pessoas que lhes tirassem os grilhões de uma rotina insossa.
No tempo do saxofone, ele só estudava canções de bom gosto, tais como SMILE, GAROTA DE PANEMA, AND I LOVE HER, etc...
Agora, depois de abandonar seu instrumento, de vez em quando usa a voz, principalmente, claro, quando não tem nada pra fazer e fica “chamando chuva”, porque pela boca só sai trapalhada, que não vou enumerar aqui por respeito aos meus colegas de trabalho artístico.
Aí, eu pergunto: um instrumento musical exige mais rigor ao gosto de quem o toca do que a voz exige de quem a ergue no ar?
Cantar a gente canta de qualquer jeito, sem compromisso com formalidades como partitura ou até mesmo com a riqueza sonora de um instrumento? Isto na porta de casa, claro!
Onde ficaram aquelas canções primorosas via saxofone que sofreram reclamações dos vizinhos e que hoje foram substituídas pelas músicas de baixa qualidade movimentadas pela língua dele, tanto na música quanto na letra?
E olha que ele não bebe, é até um cara meio religioso... Ou talvez por isso mesmo, sendo a religião algo muito abstrato para nossa musicalidade carioca e espontaneamente suburbana...


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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Gustavo Scarpa
(Não precisa ser tricolor para ler esta crônica; precisa apenas amor ao futebol-arte e admiração por um jogador que ama a sua camisa)






Este nome merece uma crônica (além da placa que vão colocar no estádio em que ele entrou para a história do time do Fluminense – Globo F.C., do Rio Grande do Norte –, marcando um gol quando ainda se encontrava antes da linha de meio de campo, depois de perceber o goleiro adiantado.)...

Com sua canhotinha de ouro, certamente a bola que Scarpa detonou há metros e metros de distância do gol adversário contou com a suave colaboração de algum vento soprado pelos deuses daquele estádio, como diria um antigo e genial cronista do futebol brasileiro.

Certamente, o couro que constituía a bola foi confeccionado pelos anjos que zelam pelas crianças do mundo (Scarpa é baixinho e magrinho, parecendo mesmo um menino, e muito simpático). Isto chega a ser contrastante, porque os jogadores de futebol, em geral, são fortes, musculosos, pés grandes... mas Scarpa não precisa disso tudo porque ele tem o espírito eterno dos grandes craques dentro dele.

Lembro de Messi, também baixinho e genial, porém com mais massa muscular que Scarpa. Lembro também dos meus tempos dos times de base do Olaria A.C., onde eu mal comecei logo acabei minha breve carreira. Jogava de zagueiro, tinha 1,84, mais ou menos, e um chutinho sem vergonha que deixava o goleiro encostado com o ombro na trave, pernas cruzadas, assobiando e ainda tirando sujeira das unhas... depois, ele se dirigia para a bola...

Mas o Scarpa, quase sempre bate de chapa (de lado), dando uma velocidade artística à bola, descrevendo a trajetória da bola como um bailarino rodopia num palco. Ele dá uma caidinha com o tronco para trás, se inclina levemente para a direita e toca de chapa com uma elegância que há muito não se via por aqui.

Fica a homenagem à Scarpa, já que não temos mais entre nós o genial Nelson Rodrigues para homenageá-lo à altura, além da placa comemorativa do estádio potiguar.




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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre o Princípio do Vácuo,
de Joseph Newton





Acabo de assistir um vídeo muito interessante produzido sobre as ideias do autor citado no título.

O princípio do vácuo eu já conhecia sob a ótica da essência de uma visão budista da vida. E é sempre bom reciclarmos nossas ideias e reafirmarmos nossos conhecimentos sustentando-os através de novas informações, como se fosse um mantra.

O vídeo me levou a uma reflexão bacana. Todo profissional de RH, por exemplo, deveria conhecer esse princípio porque, além dela ser aplicável a objetos, também pode ser a pessoas hábitos.

Toda nova relação, em qualquer campo da vida, nunca vai encontrar espaço se estivermos sempre andando com as mesmas pessoas. Isso quer dizer que os momentos de solidão e silêncio, em qualquer grau de extensão, podem ser considerados um vácuo necessário onde, sozinhos, nos tornamos mais receptivos a novas experiências pessoais.

E, quando digo em qualquer grau de extensão, pode ser simplesmente andando na rua sem uma companhia que nos distraia e nos permita dialogar com outros ditos estranhos, seja no café, no elevador, no banco, etc.

Também, numa extensão maior, nos permite mergulhar em solidão e silêncio dentro de casa, permitindo-nos um repouso do coração e da mente, abrindo assim um vácuo para novos pensamentos e novos sentimentos.

Então, o que o autor chama de coisas não mais úteis podemos também nos estender e chamar de pessoas não mais úteis, claro que no sentido daquelas das quais se procura estar junto apenas para fugir de um desagradável encontro consigo mesmo (sendo a pessoa não possuidora de uma boa autoestima).

O mesmo princípio do vácuo também se aplicaria à força negativa de hábitos que se tornam quase inconscientes em nossas vidas. Se conseguimos construir dias novos, diferentes e fora da rotina, estamos efetivamente criando novas expectativas, ou seja, abrindo um vácuo para que, neste, se instale uma vida nova (não precisa ser totalmente nova, mas com características renovadoras, mesmo que gradativas e sutis.).

Conclusão: objetospessoas hábitos devem estar em permanente circulação mudando de cor, de lugar, de situações, etc. Assim, estaremos mudando o mundo, já que mudamos sempre a nós mesmos.

Nammo Budhaya (Eu me abrigo em Buda)





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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O tempo e suas escaramuças




“... DESDE 1981” (uma empresa, no rótulo, começou um texto escrevendo isso)... Aí, eu pensei: “Caramba, eu nasci em 1951 e esta empresa se acha tradicional no mercado só porque nasceu em 1981, ou seja, trinta anos depois de mim?!”
Tomei o maior cuidado com a qualidade dos meus pensamentos para que eu já não me visse, antes do tempo, num leito de hospital ou servindo de lanche para a terra (na verdade, eu quero que o vento me leve, literalmente, através de cinzas.).
O cuidado teve de ser redobrado, porque eu estava lendo este texto numa fila em um órgão público onde a primeira pergunta era a idade da pessoa. Na minha frente tinha um jovem que respondeu: “17 anos!”.
“17 anos???” O cara era quase da minha altura, e olha que tenho 1,88, mas a nova geração está cada vez maior mesmo. Aí, eu fiquei pensando: “O cara nasceu no ano 2000... E eu que nasci em 1951?!” Como vai ser quando chegar a minha vez (não de morrer, mas de dizer a idade ali na fila).
Por sorte, atrás de mim tinha outro senhor, aparentemente menos velho que eu, e isso me confortou um pouco. “66 anos!”, disse eu ao funcionário, não sem antes pigarrear discretamente e abaixando um pouco o volume da voz...
O jovem, que já estava saindo da fila, não deixou de olhar para trás e creio que também se assustou um pouco com a minha idade, tanto quanto me assustei com a dele.
Uma amiga, psicóloga, certa vez havia comentado comigo que, realmente, a gente só percebe pelos outros que a gente está envelhecendo, porque nossa cabeça costuma ser atemporal...


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

História que algumas amigas vão gostar de ler











Eu tive um amor (ou talvez ainda tenha, mas quero esquecer... ou, quem sabe, esse “ter” seja apenas um eco que insiste ou um reflexo que tenta me enganar...); eu dizia que tive um amor que durou tanto tempo quando ocupou espaço.

Um amor conturbado, é verdade, porém muitas vezes Deus escreve certo por linhas tortas, coisa notória para qualquer ser humano que tenha um coração e uma mente desalinhados.

Em geral, nossas relações amorosas são uma forma expressa de nossos conflitos internos, como por exemplo a falta de diálogo entre o coração e a mente: um quer o que o outro acha melhor que não; o outro sente o que o "um" acha melhor pensar duas vezes.

Este amor que partiu, ou melhor, está partindo gradualmente... Este amor que está se desconfigurando tal como uma paisagem vai ficando distante para os nossos olhos à medida que seguimos em frente em nosso caminho pessoal... Este amor, no momento, está se rebatizando com outro nome: saudade!

E depois da saudade um último e derradeiro sopro: passado!

Agora, é ficar me observando para não deixar que o tempo me traia enquanto artesão de momentos estéreis e rezar para que Deus não se transforme em um objeto de negociação.

Cada vez mais consigo acreditar que em mim há um vasto universo de possibilidades, assim que a aeromoça da vida anunciar que este amor está prestes a decolar e se perder entre as nuvens.



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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Há ladrões e ladrões...


filosofandonanet.wordpress.com







A honestidade é relativa como tudo que existe no mundo. Ela está intimamente ligada à necessidade. Já diz o ditado popular que “a necessidade faz o homem”. Outro ainda: “A ocasião faz o ladrão”.
Eu diria: “Quem sabe de si, ao outro não trai!”. Isto porque trair a si mesmo é um bom começo para trair aos outros. E o que não faz o ser humano, em uma sociedade consumista e materialista como a nossa, a não ser roubar de si mesmo a oportunidade de ser feliz através de valores espirituais.
Necessariamente, não me refiro a religiões e, sim, a um comportamento em que poderíamos dividir a ideia de um mundo em que não existe eu ou o outro, e sim o nós.
Se eu roubo de mim esta oportunidade, é claro que farei tudo que puder para roubar do outro qualquer oportunidade que ele tiver para realmente ser feliz.
A verdadeira honestidade não deve ser analisada pelo que acontece em  tribunais ou penitenciárias; ela começa em nós e tem de terminar no outro, pois não pode ficar também apenas represada em nossa consciência individual.
Havendo reflexos sociais, então nosso caráter não precisa do julgamento de ninguém, muito menos de nós próprios.
Não vamos roubar do outro a oportunidade de ser eternamente feliz, estimulando nele uma visão mais autêntica, pura e espiritualista de que sua vida é tão simples que precisa de muito pouco para se sentir tanto.


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Causas e causos:
as flutuações de uma língua
em constante mutação


















É uma coisa fantástica a língua falada democraticamente pelas ruas, pelas esquinas, pelas centenas de tribos que circulam por aí.

Confesso que me dá, às vezes, vontade de apreendê-la, mas ela é escorregadia; em determinado momento significa uma coisa, de repente significa outra.

A minha mais recente surpresa veio de um senhor que disse saber das causas e dos causos com relação a determinado assunto que não lembro agora. Eu entendi “causas” como sendo as coisas que colaboraram para que determinado fato acontecesse. Até aí não há novidade. Mas “causos” concluí que seriam os fatos acontecidos ou acontecendo ou por acontecer.

Lembro agora de “ser a sombra do cocô do cavalo do bandido” como expressão de ser a pior situação em que um homem pode se encontrar. Uma sombra não é nada; menos ainda a sombra de um cocô. Muito menos o cocô de um cavalo. E, pra culminar, o cavalo era do bandido e não do mocinho (expressões típicas do tempo dos filmes de bang-bang do Velho Oeste norte-americano).

“Nem que a vaca tussa!” tornou-se uma expressão incompleta a partir do momento em que a nossa tradição oral acrescentou uma língua para a vaca, ou seja, “Nem que a vaca tussa em alemão!”. Quer dizer, tornou-se mais impossível ainda qualquer chance de um sujeito mudar de ideia...

Pelo contrário, as palavras acompanham a mudança dos tempos e, à medida que os anos passam, se não as acompanhamos, nos condenamos a mumificação de nossos neurônios que precisam estar em permanente movimento para tão cedo não entrarem em curto circuito, como qualquer outro mecanismo (natural ou não) que obedece a um conjunto de leis dinâmicas de existência.




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