quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alfabetagametizando
















Quando eu era pequeno (e não pensava muito, só vivia, deixando esta tarefa para minha mãe e meu pai), a grafia tinha certo sabor diferente da que eu sentia em um prato de comida.

Parecia que cada letra tinha seu próprio significado e que não era apenas um signo ou símbolo. O caderno de caligrafia abria-se como um horizonte de possibilidades morfológicas letra a letra.

As curvas do a eu, ainda impúbere, já pressentia que muito prazer me esperava pela frente no futuro. O i minúsculo me lembrava um jogador de futebol equilibrando a bola ou mesmo cabeceando para o alto. E o J maiúsculo, abrindo o espaço em meu nome, que tinha uma curva tipo a e ainda sustentava a bola na cabeça, sugerindo visivelmente a junção de um bailado e um malabarismo?!

Mas, hoje, ao escrever, o pensamento é muito veloz e a grafia perdeu seu encanto primário, submetendo-se a um papel de coadjuvante de uma semântica do século XXI, sem o menor comprometimento com a arte de ser feliz entre um lápis e uma caneta esferográfica.


Bons tempos! Bons tempos!


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terça-feira, 25 de julho de 2017

Canção sem o menor constrangimento

id.gutbilder.com













Ai, quem dera ter você aqui perto para cuidar de mim não tanto como cuida do teu cachorro... Puxa vida, eu não tô legal, sabe?! Não estou em mim, as coisas não estão se encaixando em mim, pior ainda assim longe de você.
Quisera você pudesse soprar alguma coisa pelos seus lábios que eu tanto beijo e que tanto lambem meu corpo na cama... quisera fôssemos um só, aí sim eu estaria com tudo dentro de mim... eu voltaria para mim!
Eu sei muito bem o que se passa, mas saber não é tudo: eu precisaria aprender a passar junto a tudo. Ou seja, sentir o que está acontecendo não só em mim como também em tudo.
Depois que isso passar, vou me tornar mais crescido, mais humano, mais consciente do que aproxima todos nós em humanidade. Mas dói tanto quanto o afastamento da borboleta do casulo... da semente da terra... do olhar desenfreado da íris indo ao encontro do voo do Universo.
Tudo bem, eu só quero chorar em paz, mesmo que você ainda não tenha visto isso. Mas saiba que eu também choro, também oro, também busco clareza na turbulência de um pranto sincero pelo que a gente não tem, pelo que a gente procura ter, pelo que a gente até tem mas não reconhece como o verdadeiro valor do que é ter alguém ou alguma coisa segurando nossas mãos ou atraindo nossos olhos.
Então, eu choro...



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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Marcando o caminho com migalhas

http://priscilamanavaz.blogspot.com.br/









A sensação que eu tenho hoje, 2017, é que as elites ainda repetem a mesma estratégia dos “bondosos” colonizadores do Brasil que estimularam a guerra entre as tribos africanas do século XVI ao século XIX para “extrair” os escravos que lhes serviriam como animais aqui em nossa pátria amada.
Li recentemente em um mural do meu bairro:  “Um pobre mata outro pobre para comer as migalhas dos ricos”.
A violência entre os homens parece ser um bom investimento para as classes mais privilegiadas. Enquanto os pobres, os miseráveis e os zumbis arrastam-se por aí ou trabalhando, ou pedindo esmola ou morrendo em vida, os investimentos em publicidade, seja de empresas ou de artistas e políticos, é cada vez mais vigorosa.
Vide a violência maior que é a corrupção política (vindo atrás os investimentos estupidamente gananciosos dos grandes capitais). Enquanto aqui embaixo nos destruímos com as mais diversas formas (sutis ou não), os ricos cada vez mais alucinam a claridade dos dias sem deixar nem um pouco de esperança para nós.
Só migalhas...



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terça-feira, 18 de julho de 2017

Balada do lado sem luz***

br.123rf.com














Em essência, o ser humano vira as costas para a liberdade. E o que é a liberdade para a maioria do gado humano? É o pavor da individualidade; por extensão, o medo da solidão e o grito tempestuoso do silêncio.

A rotina entra aqui como uma válvula de escape para que não se tenha que conviver consigo mesmo enquanto indivíduo livre e designado pela Natureza como inteligente e criativo.

As razões da “luta pela sobrevivência” são uma forma nublada e esquálida de se erguer apenas com bengalas e muletas do tipo “salário”, “patrão”, “colegas de trabalho”, “sacrifício da viagem”, acordar já "respirando trânsito", “bom-dias” quase inaudíveis de tão mecânicos, etc, etc.

Na década de 1970, o compositor João Ricardo, do grupo Secos & Molhados, resumiu bem esta linha de raciocínio neste belo refrão: “O patrão nosso de cada dia”.

Sonhar... para quem segue seu caminho de escravo de qualquer rotina, sonhar é querer um dia ter esporas mais brilhantes, cadeados reluzentes e algemas de ouro.

Enquanto isso pássaros cantam para os distraídos; o vento assobia para os não comandados; o céu anuncia um novo horizonte vertical para os que se reconhecem com asas para voar em seu coração...

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Título de uma obra prima musical de Gilberto Gil.



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sexta-feira, 14 de julho de 2017

A volta dos que não foram
(Significante: semantema; significado: morfema)

http://divagacoesligeiras.blogs.sapo.pt/206177.html













Quando conversamos – por incrível que pareça – o que menos importa é a palavra e o seu significado. Hoje em dia a gestualidade (expressão) vai dar sentido a um termo no momento em que se torna um meio de comunicação.
É o tom que damos ao que falamos que vai refletir, em sua intensidade, o sentido do que queremos dizer.
Dia desses encontrei um amigo, perguntei: “Lembra do China” – um ex-vizinho nosso. Eu só queria dizer que o havia encontrado e ele estava bem.
Mas... dei muita ênfase à minha pergunta e isto o impressionou de tal maneira, que o pegou de surpresa e, como a maioria dos mortais, reagiu emocionalmente:
– Morreu?!
– Não, meu amigo, quem morreu foi a minha vontade de continuar nossa conversa.

Por que o ser humano, trágico por excelência, tem sempre que dar ou esperar uma notícia ruim que o emocione, o remexa por dentro, o deixe feliz, sentindo-se vivo como uma forma de não-morte?!


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terça-feira, 11 de julho de 2017

À tarde

https://www.pinterest.pt/pin/96475617000836847/














Mas eu sei que você ainda habitará meus sonhos à noite. Sei que as imagens que abrirão os caminhos do meu repouso ainda mostrarão teu sorriso como um atalho para a minha verdadeira vida, que só eu mesmo posso trilhar.

Eu sei, também, que a noite não guardará segredos como qualquer pastor guarda um rebanho ou a morte precisa guardar os caminhos de todos os vivos para lhes justificar a vida.

Os segredos da noite desvelam-se no escuro porque precisam da privacidade de tudo que é óbvio e, por tanto, pode ser mal interpretado.

Eu sei que, pela manhã, acordarão ainda os ecos e os reflexos da luz do teu crepúsculo de ontem. Você, tarde, dá o sinal indiscutível para quem larga os cabelos no vento, os pés nos caminhos sem cal e os olhos na horizontalidade irresistível.

Até que você volte para meus braços como está escrito no ar pelos movimentos da minha vontade de viver.



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quinta-feira, 6 de julho de 2017

O tempo sem contratempos



















A sombra de ontem é o presente de hoje.
A sombra do presente de hoje será o futuro de amanhã.
A sombra do futuro de amanhã será o infinito do que será um dia.
A sombra do que será um dia, sim, será o fruto de ontem, hoje e amanhã.
A ilusão do tempo em fatias foi criada pela necessidade humana de tentar dominar a Natureza e, ao mesmo tempo, a sua própria natureza interior.
Dar um sentido ao que não tem sentido nenhum, do ponto de vista da ordem caótica do Universo, é uma forma de predeterminar o resultado de coisas que só interessam aos poderosos em todos os campos da atividade humana.
O relógio? Hum, este não só trabalha de graça (como diz a frase popular), como também adorna pulsos como objetos de luxo. O relógio, na verdade, é a formalização dessa mania que a civilização tem de aprisionar a vida em uma faixa de tempo-espaço predeterminada.
Não vou divulgar a ideia de voltarmos aos braços dos ciclos da Natureza, porque infelizmente não dá mais para pensar nisso, já que entramos numa viagem sem volta. Mas posso afirmar que colocar nosso mundo interior em sintonia com o Universo e seu antitempo é o melhor remédio para os males da humanidade.


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terça-feira, 4 de julho de 2017

Big bang interior












































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