terça-feira, 31 de janeiro de 2017

As horas de Eva












Quando ela arremessou o olhar, as horas começaram a se transformar em momentos agradáveis e circulavam pela loja como crianças crescendo rapidamente e se tornando adultos mais do que maliciosos: as horas eram morenas, cabelos como crina de cavalo ao vento e cílios como arbustos remexidos por lembranças cada vez mais recentes.

No setor de frutas, bem abaixo da parreira do olhar de Eva – a atendente da loja que mais se aproximava da exata expressão humana feminina –, eu permeava de calor as líquidas mangas, voluptuosas mangas que exalavam um ardor úmido de desejo e cumplicidade.

As mangas, bem junto ao meu ventre, deixavam-na cada vez amarelando mais em fibras cada momento de um sorriso flutuando em sua face. As mangas, mesmo fora da promoção da loja, chegavam à minha língua pelo odor feminino do vapor da pele berrante de minha caça.

Eu acreditava piamente que a morte tinha sentido absoluto, mas em nossa vida relativa era melhor mesmo acreditar na existência de uma espiritualidade sã, pelo menos diante de Eva, que sempre me levava a reflexões para o lado de lá.

Pecado ou não, a questão é que a morte é natural e o que nos assusta nela é justamente o artifício de nos crer eterno, principalmente quando beijamos as maçãs de Eva ou desertamos de sua salinidade.

Na loja, tudo isso que penso agora escoa pelo chão, tal como as laranjas que o doce vizinho deixou cair e que abusaram de sua condição de esfera, circundando meus passos como se meus passos fossem pétalas de algodão.

Os meus dedos contornaram as curvas de um mamão, enquanto ela – Eva, a vida – se inclinava para pegar algo no chão e sua curta saia ascendia em seu corpo como as vestes expostas de um vegetal, a casca de seu corpo, a luz de entre as suas pernas.

Eu mal podia acreditar que naquele dia, naquela loja, naquele (eu) que estava sendo ali, habitava um hortidesejo monumental, precioso ao coração tanto mais puro, quanto mais cafajeste.

Não havia bem e mal se enlutando mutuamente; havia o desejo interrompendo fronteiras, explodindo horizontes...

Senti os pelos de um pêssego querendo mais de meu toque, arrepiando-se por sobre a cabeça de Eva, permitindo-se ao meu carinho, permeando-se ao meu desejo, e bastaria apenas um deus do mundo aparecendo ali e eu e ela seríamos deuses também, mas deuses daqueles que não temem nem são temidos, deuses de si mesmos, aparentando velhice para no fundo brincarem sem compromisso nenhum com a vida ou a morte, gozando eternidades apenas.

A rudeza do inhame, raiz profunda da vida, com sua grossa superfície peluda, entre as minhas pernas alimentava-se da sutileza de algo erétil, cuja função orgânica é movida pela partícula anímica que ergue túmulos, berços, ânus, pênis...


Depois de cozido, o inhame flutua na boca, os seios dela também flutuam, seu olhar ainda tímido também ferve... e tudo se faz segredo desvendado entre dois legumes, duas verduras, duas frutas... em uma só existência.



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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Vozes












O pensamento é a voz da mente. Ouvi-la é uma atitude sábia, porque não fala nem canta, não cala nem grita. A mente fala pelos pensamentos e, na maioria das vezes, dirige sua intenção a nós mesmos. Precisamos manter a mente em paz e nossos pensamentos saberão nos conduzir, enquanto ainda estiverem atuantes.
Por sua vez, a mente é um dos caminhos do cérebro, pois é através dela que ele recebe a sua parte inteligente, consciente e virtual. Desdobrando-se em pensamentos positivos ou não, a mente torna-se um organismo intermediário entre o que nossa consciência produz e o nosso cérebro recebe como mensagem psicoemocional.
O cérebro é o corpo físico-químico da alma. Depois dos pensamentos da mente, são as sinapses que se estruturam e reestruturam compondo essa massa viva que é o quartel general de nosso sistema nervoso.
A distância que cobrimos entre os pensamentos e as sinapses é tão sutil quanto o vento, que precisa de algum objeto que se movimente para sentirmos sua presença.
A nossa felicidade está na qualidade do que pensamos (poder transformar da realidade tanto interior quanto exterior) e no movimento físico que vai estimular sinapses renovadoras.
O primeiro passo é onde estamos e com quem andamos. O segundo, o que somos e para onde vamos.
O terceiro e último é nunca esquecer de levar apenas nossos pensamentos mais eternos e nossas sinapses mais vigorosas.


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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Memória brasileira:
dois lados da mesma moeda










Quando a gente fala de História, a gente se vê diante de uma bifurcação estranhamente vertical e horizontal.
Horizontal
Eu pertenço a um grupo de amigos de longa data que hoje se chama SARAU DOS SAMBISTAS e que tem a pretensão de abrir os corações para o samba e para a poesia, custe o que custar. Paraíso ou inferno?
O certo é que estaremos no Centro de Música Artur da Távola, dia 22 de fevereiro, tricoteando, saracoteando e entrelaçando duas coisas mais lindas que nos movem entre as nuvens pelo Universo afora: música e poesia.
Vertical
Matemática! Matemática?! Sim, a equação étnico-cultural entre quem vivia no Brasil, quando os europeus aqui chegaram, e a herança que sangra até hoje: índios, brancos, negros, etc.
De cima pra baixo, porque as elites brasileiras sempre buscaram na Europa seus modelos prediletos em todos os setores da vida.
De forma linear, porque o SARAU DOS SAMBISTAS é a continuidade do samba de rua (Donga), do samba de raiz (Candeia), do samba poético (Paulinho da Viola), do samba histórico (Bosco e Blanc). Isso de forma autoral e inédita.

Aqui estamos. Aqui somos. Aqui fundaremos sempre um novo som, uma nova sombra para repouso temporário de nossas memórias brasileiras.





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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

À sombra de uma lua diurna













A sensação que eu tenho hoje, 2017, é que as elites ainda repetem a mesma estratégia dos “bondosos” colonizadores do Brasil que estimularam a guerra entre as tribos africanas do século XVI ao século XIX para “extrair” os escravos que lhes serviriam como animais aqui em nossa pátria amada.

Li recentemente em um mural do meu bairro:  “Um pobre mata outro pobre para comer as migalhas dos ricos”.

A violência entre os homens parece ser um bom investimento para as classes mais privilegiadas. Enquanto os pobres, os miseráveis e os zumbis arrastam-se por aí ou trabalhando, ou pedindo esmola ou morrendo em vida, os investimentos em publicidade, seja de empresas ou de artistas e políticos, é cada vez mais vigorosa.

Vide a violência maior que é a corrupção política (vindo atrás os investimentos estupidamente gananciosos dos grandes capitais). Enquanto aqui embaixo nos destruímos com as mais diversas formas (sutis ou não), os ricos cada vez mais alucinam a claridade dos dias sem deixar nem um pouco de esperança para nós.

Só migalhas...



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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A minha vila, a minha vida














A vila onde moro é cheia de personagens não diria inacreditáveis até porque se existem é porque dá para acreditar, e são tangíveis porque dá para cumprimentar.

Tenho um vizinho que estudava saxofone e desistiu, coitado! Ele tinha de ir pro meio do mato aqui perto pra estudar, porque as pessoas eram preconceituosas, impacientes e incultas em termos de música.

No tempo do saxofone, ele só estudava canções de bom gosto, tais como SMILE, GAROTA DE PANEMA, AND I LOVE HER, etc...

Agora, depois de abandonar seu instrumento, de vez em quando usa a voz, principalmente, claro, quando não tem nada pra fazer e fica “chamando chuva”, porque pela boca só sai trapalhada, que não vou enumerar aqui por respeito aos meus colegas de trabalho artístico.

Aí, eu pergunto: um instrumento musical exige mais rigor ao gosto de quem o toca do que a voz exige de quem a ergue no ar?

Cantar a gente canta de qualquer jeito, sem compromisso com formalidades como partitura ou até mesmo com a riqueza sonora de um instrumento?

Onde ficaram aquelas canções primorosas via saxofone, abafadas pelas músicas de baixa qualidade evidente movimentadas pela língua dele, tanto na música quanto na letra?

E olha que ele não bebe, é até um cara meio religioso...



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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A terra dos grãos









O encontro foi por acaso mas o diálogo não, porque haveria de transformar a vida de ambos. O acaso sempre foi questionável, já que a Lei da Atração está aí mesmo regendo nossas vidas, mesmo quando nossas vidas são apenas e aparentemente fruto de um distraído acaso.
Quem são os poetas? Homens que caminham com o coração...
O que é o coração para eles? O sereno da noite, as lágrimas dos homens e o instinto dos animais...
E as montanhas? São como o seu cérebro, que fica no alto dos seus corpos...
E a noite, para que serve o escuro? Para a noite, o escuro é a atmosfera perfeita para ver quem tem força natural para brilhar...
Quando os poetas sangram, além de feridas, o que mais isso pode significar? Que muitas vidas disputam espaço, umas esbarrando nas outras, sangrando, mostrando o jorro da consciência suprema...
Por que as portas do paraíso são as mais estreitas, segundo diz a Bíblia e confirmada pela pele exposta das ruas? Porque, entre dois caminhos, os poetas escolhem o mais difícil, velejando o sofrimento como matéria prima da existência plena.
E o encontro entre a liquidez do mar e a espessura das rochas? Se uma não existisse, a outra não poderia ter certeza de sua própria existência. O mar e as rochas, embora pareçam antagônicas, são como o poeta e a poesia... enquanto um for rígido e imortal, o outro será dócil e passageiro...
E as ilhas, que flutuam tão sozinhas? Elas não flutuam... estão enraizadas no fundo do mar... Os limites de uma ilha confirmam a infinitude do mar que a rodeia. Ninguém pode alcançar um grande amor, principalmente o Amor Absoluto, se não se sentir uma pequena ilha, porque assim poderá vislumbrar todo horizonte que o abriga.
Como se abrem os caminhos? Com a força das sementes, debaixo para cima; com a força das estrelas, de cima para baixo. Com a força do pensamento, de dentro pra fora; com a força da natureza, de fora para dentro.
Por que os poetas são desobedientes? Até a Terra gira em torno de seu próprio eixo, mas seu eixo, em relação ao Sol, é inclinado. A desobediência dos poetas não está em sua intenção, mas em sua ação natural.
Por que temos sempre de partir? Os poetas sabem que um poema é composto de versos, assim como a vida é composta de partes. Não partimos exatamente porque morremos, e sim porque nos despojamos de uma parte de nós, tal como as cobras trocam de pele, os galhos trocam de folhas ou o céu troca de nuvens.
Pode-se medir a distância entre os deuses e os homens? No plural ou no singular, a distância é uma só, e ela se mede pela clareza dos olhos que vêem com profundidade e na leveza da língua que fala com sinceridade. Deuses e homens são um só momento, uma só distância, um só milímetro... infinito!
Qual a época certa para plantar? Quando o sol descansa e os homens começam a sonhar...

E para colher? Quando os homens não se cansam e o sol não para de cantar...

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

4x1 – El camino de las piedras




Pra mim este gol foi do Clodoaldo, não excluindo a vigorosa conclusão de Carlos Alberto. Na foto, a gente vê o braço esquerdo estendido à frente, o braço direito para trás, o pé direito misturando-se com a multidão e a perna esquerda "escondida" atrás da foto do profissional próximo à conclusão. Bailado? Porrada? Amor à pátria?

Mas o Clodoaldo mostrou para os adversários de quem a bola gostava de ser conduzida, seduzida, abduzida...

Gerson para Jairzinho. Jairzinho para Pelé. Pelé (que recebera a indicação de Tostão apontando com o dedo que vinha alguém atrás dele) para o míssil Carlos Alberto. E o nosso grito de gol ecoa ainda hoje. Certos percursos em vida (como dessa bola de pé em pé) são inevitáveis, parecem mesmo predestinados. Quem de nós, brasileiros com mais de 50 anos de idade, poderia esquecer esse momento?!

Vou dar uma agora de Nelson Rodrigues e poetizar, metaforizar, vou mitificar as nuances do futebol. Ao contrário do jazz, por exemplo, que surgiu da pobreza negra do sul dos EUA e dominou o mundo com sua regência marcantemente renovadora e universal, o football foi inventado pelos ditos fleumáticos nobres ingleses e, hoje, universalizou-se como o esporte mais popular do mundo.

O toque artístico, inicial, do Gerson mais ou menos na linha de meio de campo, aliou-se ao furacão Jairzinho que, apesar disso, dava outra leveza à bola como se um grande urso conduzisse seu filhote amavelmente. E, com o respeito daqueles que sabem de sua grandeza interior, driblou o adversário pra direita e, como se soprasse uma esfera flutuante, empurrou-a para Pelé, que a tudo assistia do alto da meia-lua da grande área.

Dois ou três passos com a bola foram suficientes para que Pelé, sem olhar para trás, pressentisse que um torpedo traçado por seu destino verde-amarelo iria surgir ao seu lado.

A suavidade que até ali se manifestara no talento singular dos craques brasileiros (antes mesmo de Gerson, o médio-apoiador Clodoaldo havia promovido um baile no círculo central do campo, driblando simultaneamente uns 3 ou 4 italianos, só pelo simples prazer de bailar prenunciando que a arte do futebol estava prestes a se consolidar ali) irresistivelmente teve de ceder lugar ao big-bang da seleção e surgiu Carlos Alberto, que deve ter dado um susto incrível na bola, coitada, que vinha sendo conduzida com cavalheirismo e sensibilidade.

Mas ela tornou-se invisível por uns breves milionésimos de segundo e foi aparecer no fundo da rede adversária. Só faltou espatifar-se contra o tubo de imagem de nossas velhas televisões dentro de nossas casas.

E a História ficou marcada também porque Carlos Alberto Torres foi o primeiro lateral direito a transformar-se nos futuros alas e, vindo de surdina na “antiga” ponta direita, vivificou os deuses que ainda o invejavam.

O que o Uruguai fez conosco em 1950, fizemos com a Suécia que pagou o pato em 1958, com o Chile em 1962 e, em 1970, a Itália: vinte anos depois, foi definitivamente a explosão do grito engasgado do “maracanaço” de 1950.




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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Agenda fechada, mente aberta!










Páginas viradas são vidas vividas e passadas? Folhas arrancadas são pedaços de nós que o vento cuida de dar um fim?
Acabo de fechar a agenda de 2016 e abrir a de 2017. As nossas anotações são sinais gráficos de tudo e de todos que nos acompanharam e nos acompanharão.
Rabiscos não são apenas observações apressadas, muitas vezes escritas em cima da perna dentro de algum veículo. Se olharmos com o olhar de dentro veremos desenhos significativos a partir do momento em que há emoção no que foi escrito.
A sequência dos dias numerados em cada página, necessariamente não significa que houve regularidade em nossas intenções de seguir nossa consciência em direção à vida propriamente dita.
O que temos de verdadeiro, seja em pauta ou em improviso, é a nossa natureza nômade traída pelos números e pelas letras, que sempre procuram significar alguma coisa diante da vida que levamos em rotina.
Minha agenda nova é necessária, porém não essencial. Ela é útil, não fundamental. Compromissos sociais e profissionais nos levam à inércia de um mundo paralisado pelos interesses cada vez mais globais.
Nossas agendas, sim, são verdadeiros livros-guia de nossa existência livre quando abrimos suas páginas e olhamos o que há nelas com a disposição de uma criança que corre firmemente atrás de uma bola em uma relva firmemente verde.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Chamarei de canção esta faísca no ar




Há uma canção que flutua de coração em coração entre as pessoas que gostam de criar a cada dia que vai, a cada dia que vem. Ao falar desses momentos e dessas pessoas, não gosto de usar as palavras arte e artista, porque ambas estão desgastadas pela mídia grande e monstruosa que domina a opinião pública.
Refiro-me a essa antiga e estranha intuição de pertencimento a Alguém ou Alguma Coisa que rege a cada um de nós com a mesma fórmula, com a mesma vontade de nos fazer felizes, não em separado, mas como Um só.
E cada um dos seres criativos, que se renovam diante de qualquer sofrimento ou mesmo de um grande prazer, mantêm vivas as faíscas que vão girando com o movimento da Terra tornando-nos humanos semelhantes a si mesmos e a Ele.
A canção que flutua dentro de cada um de nós vai-se tornando cada vez menos perceptível, porque sutilmente evolui com cada vez menos notais musicais e cada vez mais com a intensidade do infinito.
Esta canção é minha, é tua, é de todos nós que conhecemos o eterno prazer de sermos tanto sendo apenas Um.