Pauta para um caderno em espiral
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Nós dois conversávamos muito no
estúdio de arte ao lado do quarto daquela senhora de idade avançada, que presumíamos
estar pronta para "partir para o andar de cima", sendo pouca a sua
respiração, lento o seu abrir e fechar de olhos e sua voz há muito não resistia
ao silêncio...
Conversávamos... mas sem perceber
que ela nos ouvia intensamente. Mais ninguém havia dentro daquela casa modesta
num raro subúrbio calmo do Rio de Janeiro.
Nós discutíamos filosofia
oriental: Budismo e Taoísmo era nosso prato predileto, regado à batida de limão
sem açúcar e sem gelo. Ela ouvia lá do quarto e pensava:
Por que precisam falar tanto?
Nós continuávamos falando dos
opostos que se justificam, da materialidade como índice de energização
explosiva do pensamento... E as paredes equalizavam tudo para ela:
Por que precisam pensar tanto?
Eu insistia com o Beto que nosso
futuro jornal deveria buscar uma síntese de tudo que se publicava hoje em dia.
Ele concordou e puxou uma folha de papel, mostrando-me o primeiro esboço da
capa.
As paredes riam de nós,
fotografavam tudo e a senhora sorriu sem mexer os lábios:
É... Parece que eles resolveram calar a boca e descobrir alguma coisa!
Após um breve silêncio,
acrescentei mais alguma sugestão. O Beto concordou e praticamente a capa do
jornal estava pronta.
No quarto, a mulher tossia feito
espuma tentando sair de um cano entupido:
Meu Deus, será que não percebem que já deveriam estar fazendo a página
seguinte?
Eu e Beto já estávamos na Flor da
Terceira Idade* (em torno dos 50...) e tomávamos cuidado para não cair no
abismo das sucatas das ilusões perdidas na juventude. Discutíamos isso,
enquanto a transparência das paredes nos traduzia:
Eles não podem esquecer o futuro, a forma desafiadora do que ainda não
possui forma.
Sim – dizia Beto – o céu e a terra abrigam-se mutuamente. Temos
de saber pastorear nossas sementes para que o jornal mantenha-se sempre dentro
de um círculo dinâmico que atenda às expectativas de um povo sofrido, ao mesmo
tempo alegre e observador.
Eles poderiam registrar o fato de que, sob o ponto de vista do circuito
cósmico, muito antes de inventar a roda o homem já vivia sobre e em
movimentos circulares.
Pronto! Nós três (eu, Beto e a vó
dele) já tínhamos o enredo pronto para uma história em quadrinhos ou talvez um
conto: dois artistas cinquentões, uma mulher de terceira idade... Mas faltava
ainda alguma coisa...
Nós três ficamos espantados com
nossa falta de atenção, quando um quarto personagem entrou em cena de forma
repentina, mas fechando de maneira óbvia a última cena desta história: recém-chegado
do quintal, onde brincava de eternidade e sonhos, meu filho entrou correndo
nesta página e gritou absoluto:
“Paiêêêê!
Lá fora é mais frio do que aqui dentro!”
........................
* Expressão cunhada em meu livro A VIDA QUE COMEÇA AOS 60...
OS NOVOS VELHOS, Ano 1 Editora.

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