quinta-feira, 6 de abril de 2017

Pauta para um caderno em espiral

http://sabetudo.xpg.uol.com.br/quanto-maior-a-idade-maior-a-tristeza.html















Nós dois conversávamos muito no estúdio de arte ao lado do quarto daquela senhora de idade avançada, que presumíamos estar pronta para "partir para o andar de cima", sendo pouca a sua respiração, lento o seu abrir e fechar de olhos e sua voz há muito não resistia ao silêncio...

Conversávamos... mas sem perceber que ela nos ouvia intensamente. Mais ninguém havia dentro daquela casa modesta num raro subúrbio calmo do Rio de Janeiro.

Nós discutíamos filosofia oriental: Budismo e Taoísmo era nosso prato predileto, regado à batida de limão sem açúcar e sem gelo. Ela ouvia lá do quarto e pensava:

Por que precisam falar tanto?

Nós continuávamos falando dos opostos que se justificam, da materialidade como índice de energização explosiva do pensamento... E as paredes equalizavam tudo para ela:

Por que precisam pensar tanto?

Eu insistia com o Beto que nosso futuro jornal deveria buscar uma síntese de tudo que se publicava hoje em dia. Ele concordou e puxou uma folha de papel, mostrando-me o primeiro esboço da capa.
As paredes riam de nós, fotografavam tudo e a senhora sorriu sem mexer os lábios:

É... Parece que eles resolveram calar a boca e descobrir alguma coisa!

Após um breve silêncio, acrescentei mais alguma sugestão. O Beto concordou e praticamente a capa do jornal estava pronta.

No quarto, a mulher tossia feito espuma tentando sair de um cano entupido:

Meu Deus, será que não percebem que já deveriam estar fazendo a página seguinte?

Eu e Beto já estávamos na Flor da Terceira Idade* (em torno dos 50...) e tomávamos cuidado para não cair no abismo das sucatas das ilusões perdidas na juventude. Discutíamos isso, enquanto a transparência das paredes nos traduzia:

Eles não podem esquecer o futuro, a forma desafiadora do que ainda não possui forma.

Sim – dizia Beto o céu e a terra abrigam-se mutuamente. Temos de saber pastorear nossas sementes para que o jornal mantenha-se sempre dentro de um círculo dinâmico que atenda às expectativas de um povo sofrido, ao mesmo tempo alegre e observador.

Eles poderiam registrar o fato de que, sob o ponto de vista do circuito cósmico, muito antes de inventar a roda o homem já vivia sobre e em movimentos circulares.

Pronto! Nós três (eu, Beto e a vó dele) já tínhamos o enredo pronto para uma história em quadrinhos ou talvez um conto: dois artistas cinquentões, uma mulher de terceira idade... Mas faltava ainda alguma coisa...

Nós três ficamos espantados com nossa falta de atenção, quando um quarto personagem entrou em cena de forma repentina, mas fechando de maneira óbvia a última cena desta história: recém-chegado do quintal, onde brincava de eternidade e sonhos, meu filho entrou correndo nesta página e gritou absoluto:

Paiêêêê! Lá fora é mais frio do que aqui dentro!”

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* Expressão cunhada em meu livro A VIDA QUE COMEÇA AOS 60... OS NOVOS VELHOS, Ano 1 Editora.


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