Hino ou oração?!
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." [Rui Barbosa - 1914]
Vivemos uma época em que já não nos cabe mais cantar hinos, porque podem tornar-se estímulo musical não para uma guerra declarada e comum a um povo, mas para uma convocação à violência que nossa sociedade vive hoje em dia.
Uma oração cabe bem melhor em nossos dias de franca atitude
de desrespeito que o ser humano tem por si próprio, porque as palavras sagradas
(seja qual for a religião do cidadão) nos remetem à esferas sublimes de
entendimento sobre o que está se passando entre nós.
Um hino convoca;
uma oração invoca.
Um hino pode ser uma canção devassa de um jovem cantor de hap; uma oração pode ser um apelo
sincero e profundo.
Um hino, hoje em dia, exige apenas palavras desconexas,
palavrões incabíveis ou métrica e rimas esquartejadas; uma oração pode ser
expressa por um simples olhar de compaixão (“Como
eu não sei rezar / Só queria mostrar / Meu olhar, meu olhar, meu olhar” –
Renato Teixeira).
Enfim, nosso tempo é de oração, não de hinos, porque cada um
de nós tem de redescobrir-se como parte de um todo, e este é um bom início:
voltar ao princípio agregador de tudo (nossa ação individual) para chegar ao
todo desintegrador (ação coletiva).
“Oração e
trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem”, para fechar esta crônica com o mesmo autor que a
iniciamos.
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