quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alfabetagametizando
















Quando eu era pequeno (e não pensava muito, só vivia, deixando esta tarefa para minha mãe e meu pai), a grafia tinha certo sabor diferente da que eu sentia em um prato de comida.

Parecia que cada letra tinha seu próprio significado e que não era apenas um signo ou símbolo. O caderno de caligrafia abria-se como um horizonte de possibilidades morfológicas letra a letra.

As curvas do a eu, ainda impúbere, já pressentia que muito prazer me esperava pela frente no futuro. O i minúsculo me lembrava um jogador de futebol equilibrando a bola ou mesmo cabeceando para o alto. E o J maiúsculo, abrindo o espaço em meu nome, que tinha uma curva tipo a e ainda sustentava a bola na cabeça, sugerindo visivelmente a junção de um bailado e um malabarismo?!

Mas, hoje, ao escrever, o pensamento é muito veloz e a grafia perdeu seu encanto primário, submetendo-se a um papel de coadjuvante de uma semântica do século XXI, sem o menor comprometimento com a arte de ser feliz entre um lápis e uma caneta esferográfica.


Bons tempos! Bons tempos!


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