segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Segunda Parte - Candeia












Candeia foi um dos nossos melhores versejadores... versificadores... ou, como melhor nos cabe aqui, um dos nossos melhores partideiros.

Muitos críticos não conseguem estabelecer um paralelo exato entre o improviso do Partido Alto e o improviso da Literatura de Cordel. Azar dos críticos, porque ambos se revestem de valores estéticos populares inalcançáveis por estes críticos, geralmente parte da elite social, política e econômica do país, que não passam de importadores de comportamentos...

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra; e não cabe aqui discutir isso (basta pesquisar "googlezando", como diria um amigo meu... Até porque, um país tão rico etcnoculturalmente cada um puxa a brasa para a sua sardinha...


Testamento de partideiro

Ao meu amor deixo o meu sentimento
Na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo o bom exemplo
Na paz do Senhor
Deixo como herança a força de vontade
Na paz do Senhor
Quem semeia amor deixa sempre saudade
Na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo o meu pandeiro
Na paz do Senhor
Honrei os meus pais e amei meus irmãos
Na paz do Senhor
Mas aos fariseus não deixarei dinheiro
Na paz do Senhor
Pros falsos amigos deixo o meu perdão
Na paz do Senhor

Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal
Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal

Mas se houver tristeza, que seja bonita
Na paz do Senhor
De tristeza feia o poeta não gosta
Na paz do Senhor
E um surdo marcando o choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta, mas não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor

E como levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra população, na paz do Senhor
E como eu levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra população, na paz do Senhor


Fica nítida a frequência dos pronomes possessivos “meu”... “minha”... é o “eu” egóico, individual e possivelmente consciente de sua temporalidade aqui na Terra. O poeta Candeia transfere com humildade, no refrão, para Deus, como sendo Eterno, Maior e Superior às fraquezas humanas.

Se estamos escrevendo certo ou errado, isto é algo muito relativo, porque existem diversos contextos onde o acerto ou o erro vai flutuar em vários sentidos.

Podemos nos arriscar, inclusive, a reconhecer que nos encontramos, agora, entre uma gramática oficial, aquela que nos oprime com seus medalhões literários e linguísticos, e uma gramática flutuante, em permanente mudança, tal como os versos imprevistos do Partido Alto.

Nesse sentido, nos encontramos diante de um fenômeno de resistência cultural: versos livres... mais do que livres: imprevistos.
“Licença poética” não é necessária diante de mentes brilhantes como a de nossos mestres do samba, que caminham junto ao povo, longe das catedrais, das academias e das universidades.

A seguir, mas um espaço aberto para o pronome “eu”...

(continua amanhã)




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