Segunda Parte - Candeia
Candeia foi um dos nossos melhores versejadores... versificadores... ou, como melhor nos cabe aqui, um dos nossos melhores partideiros.
Muitos críticos não conseguem estabelecer um paralelo exato entre o improviso do Partido Alto e o improviso da Literatura de Cordel. Azar dos críticos, porque ambos se revestem de valores estéticos populares inalcançáveis por estes críticos, geralmente parte da elite social, política e econômica do país, que não passam de importadores de comportamentos...
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra; e não cabe aqui discutir isso (basta pesquisar "googlezando", como diria um amigo meu... Até porque, um país tão rico etcnoculturalmente cada um puxa a brasa para a sua sardinha...
Testamento de partideiro
Ao meu amor deixo o meu sentimento
Na paz do Senhor
E para os meus filhos
deixo o bom exemplo
Na paz do Senhor
Deixo como herança a
força de vontade
Na paz do Senhor
Quem semeia amor
deixa sempre saudade
Na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo
o meu pandeiro
Na paz do Senhor
Honrei os meus pais e
amei meus irmãos
Na paz do Senhor
Mas aos fariseus não
deixarei dinheiro
Na paz do Senhor
Pros falsos amigos
deixo o meu perdão
Na paz do Senhor
Porque o sambista não
precisa ser membro da academia
Ser natural com sua
poesia e o povo lhe faz imortal
Porque o sambista não
precisa ser membro da academia
Ser natural com sua
poesia e o povo lhe faz imortal
Mas se houver
tristeza, que seja bonita
Na paz do Senhor
De tristeza feia o
poeta não gosta
Na paz do Senhor
E um surdo marcando o
choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta, mas
não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim
que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é
forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só
chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor
batida de limão, na paz do Senhor
E como levei minha
vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto
pra população, na paz do Senhor
E como eu levei minha
vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto
pra população, na paz do Senhor
Fica nítida a frequência dos pronomes possessivos “meu”...
“minha”... é o “eu” egóico, individual e possivelmente consciente de sua
temporalidade aqui na Terra. O poeta Candeia transfere com humildade, no
refrão, para Deus, como sendo Eterno, Maior e Superior às fraquezas humanas.
Se estamos escrevendo certo ou errado, isto é algo muito
relativo, porque existem diversos contextos onde o acerto ou o erro vai flutuar
em vários sentidos.
Podemos nos arriscar, inclusive, a reconhecer que nos
encontramos, agora, entre uma gramática
oficial, aquela que nos oprime com seus medalhões literários e
linguísticos, e uma gramática flutuante,
em permanente mudança, tal como os versos imprevistos do Partido Alto.
Nesse sentido, nos encontramos diante de um fenômeno de resistência
cultural: versos livres... mais do que livres: imprevistos.
“Licença poética” não é necessária diante de mentes
brilhantes como a de nossos mestres do samba, que caminham junto ao povo, longe
das catedrais, das academias e das universidades.

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