quinta-feira, 28 de setembro de 2017

TERCEIRA PARTE

Uma questão de coragem













Quem sou eu?! Difícil responder a esta pergunta. Tudo e todos que existem, existem porque estão em movimento e isso não é novidade alguma desde os antigos gregos que começaram a distribuir entre eles elementos não estáticos.

Entre os africanos é notório também o saber olhar para o céu, saber decifrá-lo não através da razão, como nós ocidentais, mas com uma perspectiva mitológica enraizada na terra, no céu, na água e no ar que transcendia a questão meramente humana de “ser ou não ser”.

Esse olhar certamente permeou étnica e culturalmente o Partido Alto na forma de samba que mais se aproxima da origem do batuque angolano, do Congo e outras regiões vizinhas.

Modernamente, o estilo Partido Alto com base em versos realmente improvisados vem caindo em desuso, não só pela diminuição de rodas de samba em sua concepção original, como pela facilidade atual de se repetir versos pré-elaborados, gravados e difundidos pela tecnologia da comunicação deste século XXI.

A questão do “eu” não é meramente filosófica, do ponto de vista de alguém olhar para si mesmo e tentar extrair de forma abstrata a essência do que existe no mundo a partir de uma ótica pessoal.

Candeia, no documentário PARTIDO ALTO, de Leo Hirzmann, diz que este é a expressão mais autêntica do samba. Aí, ele deixa clara a categoria do “eu” que se mostra 1) evidente; 2) de forma velada; ou 3) desmembrando-se em “meu”.


EU SOU UM HERÓI    (João de Abreu)


Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Não consigo aturar nem mais um patrão
Que quer só mostrar que é o dono do mundo
Ou eu fico duro, ou viro ladrão
Ou só pra rimar eu me chamo Raimundo

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Os vizinhos já estão a pensar mal de mim
Fofocam que eu sou mafioso ou gay
Eu não penso que a grana vem do capim
Eu faço magia, não sei de onde vem

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Vagabundo não é mais aquele ocioso
Pode ser um distinto bem desempregado
Quem sabe a gente acostuma com osso
Onde a vida murmura um som desafinado

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Na rua as pessoas só pisam em buracos
Achando que o mundo não vale um vintém
Fazendo castelos por sobre barracos
E dizendo que a crise não vai muito bem.

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

O meu pai, no passado, não cansou de pedir
Para eu ser um médico ou então militar
Mas não conseguiu me fazer redimir
Pois ele era pobre e não pode pagar

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Eu só faço arte, não é malandragem
Não é por orgia, pilhéria ou um bem
Canto que a vida anda de estiagem
Poeta, herói, eu sou João Ninguém

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Cada dia que eu pego uma condução
Eu pago um preço que sempre é demais
Eu não ganho nada fazendo canção
Sendo assim, eu só pulo pela porta de trás

Tô sempre rindo daquilo que dói
No fundo eu acho que eu sou um herói

Não arranjo emprego em lugar nenhum
Eu vou no Maraca sem Zico ou Mané
Chego prum amigo: “Me empresta mais um”...
E assim vai a vida como Deus quiser.

(CONTINUA)


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