terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O tempo e suas escaramuças




“... DESDE 1981” (uma empresa, no rótulo, começou um texto escrevendo isso)... Aí, eu pensei: “Caramba, eu nasci em 1951 e esta empresa se acha tradicional no mercado só porque nasceu em 1981, ou seja, trinta anos depois de mim?!”
Tomei o maior cuidado com a qualidade dos meus pensamentos para que eu já não me visse, antes do tempo, num leito de hospital ou servindo de lanche para a terra (na verdade, eu quero que o vento me leve, literalmente, através de cinzas.).
O cuidado teve de ser redobrado, porque eu estava lendo este texto numa fila em um órgão público onde a primeira pergunta era a idade da pessoa. Na minha frente tinha um jovem que respondeu: “17 anos!”.
“17 anos???” O cara era quase da minha altura, e olha que tenho 1,88, mas a nova geração está cada vez maior mesmo. Aí, eu fiquei pensando: “O cara nasceu no ano 2000... E eu que nasci em 1951?!” Como vai ser quando chegar a minha vez (não de morrer, mas de dizer a idade ali na fila).
Por sorte, atrás de mim tinha outro senhor, aparentemente menos velho que eu, e isso me confortou um pouco. “66 anos!”, disse eu ao funcionário, não sem antes pigarrear discretamente e abaixando um pouco o volume da voz...
O jovem, que já estava saindo da fila, não deixou de olhar para trás e creio que também se assustou um pouco com a minha idade, tanto quanto me assustei com a dele.
Uma amiga, psicóloga, certa vez havia comentado comigo que, realmente, a gente só percebe pelos outros que a gente está envelhecendo, porque nossa cabeça costuma ser atemporal...


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