A minha vila, a minha vida
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A vila onde moro
é cheia de personagens não diria inacreditáveis (até porque se existem é porque
dá para acreditar), mas são palpáveis, tangíveis em meu dia-a-dia.
Tenho um vizinho
que estudava saxofone e desistiu, coitado! Ele tinha de ir pro meio do mato pra
estudar, porque as pessoas eram preconceituosas, impacientes e avessas às
coisas e pessoas que lhes tirassem os grilhões de uma rotina insossa.
No tempo do
saxofone, ele só estudava canções de bom gosto, tais como SMILE, GAROTA DE
PANEMA, AND I LOVE HER, etc...
Agora, depois de
abandonar seu instrumento, de vez em quando usa a voz, principalmente, claro,
quando não tem nada pra fazer e fica “chamando chuva”, porque pela boca só sai trapalhada,
que não vou enumerar aqui por respeito aos meus colegas de trabalho artístico.
Aí, eu pergunto:
um instrumento musical exige mais rigor ao gosto de quem o toca do que a voz
exige de quem a ergue no ar?
Cantar a gente
canta de qualquer jeito, sem compromisso com formalidades como partitura ou até
mesmo com a riqueza sonora de um instrumento? Isto na porta de casa, claro!
Onde ficaram
aquelas canções primorosas via saxofone que sofreram reclamações dos vizinhos e
que hoje foram substituídas pelas músicas de baixa qualidade movimentadas pela
língua dele, tanto na música quanto na letra?
E olha que ele
não bebe, é até um cara meio religioso... Ou talvez por isso mesmo, sendo a
religião algo muito abstrato para nossa musicalidade carioca e espontaneamente suburbana...

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