quinta-feira, 16 de março de 2017

Crônicas crônicas*












Parece que o sintoma de que estamos envelhecendo é o sumiço ou o reaparecimento de algumas palavras. Por exemplo: “empombada”. Dia desses, deixei escapar esta palavra para classificar uma amiga meio nervosa e de pavio curto. Há quanto tempo eu não usava essa palavra?! Renasceu... O reaparecimento é fácil de perceber, agora... o sumiço é impossível, senão não teria sumido... rsss...
Agora, tem uma palavra que infelizmente ficou desgastada pelo excesso de uso com qualquer pessoa, em qualquer lugar, por qualquer razão... Como é que se pode chamar alguém de “amor” a troco de nada, todos os dias, repetindo esta palavra apenas como um papagaio de pirata.
Como uma balconista me chama de amor para me dar o troco ou para chamar minha atenção para o pacote que esqueci?
Esta palavra não deveria ser guardada a sete chaves num baú enferrujado dentro de um sótão e só tirá-lo quando, milagrosamente, encontramos nossa cara metade; nem deve ser perpetuada de forma inalcançável em templos religiosos... mas, também, deve ser preservada em nós como um diamante bruto que vai sendo aos poucos lapidado sempre que descobrirmos que o amor é sublime desde antes de chegarmos aqui e mesmo depois de partirmos.
Amar é, antes de tudo, perceber o mundo que nos rodeia como um espelho do alcance de nossos corações, e palavra nenhuma no mundo pode traduzir esse sentimento, quanto mais uma palavra que rola de boca em boca sem atravessar o peito como antigamente a flecha de cupido.
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* Incrível paridade entre forma (morfologia), som (fonética) e significado (semântica) de ambas as palavras. Traduzir-se-ia como “Crônicas graves”... “Crônicas difíceis”...



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