quinta-feira, 30 de março de 2017

Ladainha (em tempos de crise)


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Hoje, muitas vezes, a gente tem que dormir com o inimigo, claro que sem deixar de ficar com um olho no padre e outro na missa, já que jacaré malandro – em rio de piranha – nada de costas...

Muitas vezes, quando a gente sonha com urubu, a gente tem que se ligar na parada porque pode dar avestruz na cabeça, já que loucura pouca é bobagem, à medida que o tempo é que nem carroça: se faz muito barulho, está vazia...

Então, deixar a língua solta demais pode obrigar a gente a colocar o rabo entre as pernas ou tirar o cavalinho da chuva. Se malandro demais se atrapalha e otário é vítima de si mesmo, é melhor pisar em ovos e comer pelas beiradas...

Também não precisa latir de noite para economizar cachorro, porque o ladrão pode ser surdo; nem dar nó em pingo dágua pensando que vai fechar a torneira. É preciso um pouco de malícia porque, se você já não for mordido de cobra, é melhor não futucar a onça com vara curta...

Hoje em dia, quando a lua às vezes se espreguiça até meio-dia – esquecendo que o ser humano criou as 24 horas em estado de demência; ou quando pensamos que Deus é brasileiro, só pra dar um jeitinho de puxar a brasa pra nossa sardinha... é preciso esperar passar a hora da onça beber água, admitir que um rato está miando ou um gato latindo...

É assim, hoje em dia, que a vaca vai pro brejo, se não prestamos atenção onde colocamos nosso boné ou nossa bengala... A questão já não é mais se o boto deflorou a moça, nem se ele vai casar ou não com ela, mas sim porque ela não quer mais casar, não acredita mais nessa lorota, nesse lengalenga, e se mantém tranquilamente por cima da carne seca, porque já não está aqui para disse-me-disse, pura conversa para boi dormir (e não abre mão de abrir espaços, nem que a vaca tussa em alemão).

E o homem, em pleno crepúsculo masculino, está sendo tão obrigado a se virar para sobreviver, que está levando isso até os limites da cama. Mas, como diz a resistência machista, macho que é macho, é macho até debaixo de outro macho...

Bem, nada como um dia depois do outro com uma noite no meio... Vou à luta, porque atrás vem gente e, na frente, matar um leão por dia...

Mas se você achou tudo isso papo de cercar Lourenço, e se tiver menos de 60 anos de idade, saiba que, quando você vinha com o milho, meu fubá já estava pronto desde mil, novecentos e guaraná com rolha...


Não escrevo mais, porque já não como linguiça para não dar confiança a porco, daí que vou saindo de leve, porque seguro morreu de velho e o desconfiado está vivo até hoje.



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