Ladainha (em tempos de crise)
Hoje, muitas vezes, a gente tem que dormir com o inimigo, claro que sem deixar de ficar com um olho no padre e outro na missa, já que jacaré malandro – em rio de piranha – nada de costas...
Muitas
vezes, quando a gente sonha com urubu, a gente tem que se ligar na parada
porque pode dar avestruz na cabeça, já que loucura
pouca é bobagem, à medida que o tempo é que
nem carroça: se faz muito barulho, está vazia...
Então,
deixar a língua solta demais pode
obrigar a gente a colocar o rabo entre as
pernas ou tirar o cavalinho da chuva.
Se malandro demais se atrapalha e
otário é vítima de si mesmo, é melhor pisar
em ovos e comer pelas beiradas...
Também não
precisa latir de noite para economizar
cachorro, porque o ladrão pode ser surdo; nem dar nó em pingo dágua pensando que vai fechar a torneira. É preciso
um pouco de malícia porque, se você já não for mordido de cobra, é melhor não futucar
a onça com vara curta...
Hoje em
dia, quando a lua às vezes se espreguiça até meio-dia – esquecendo que o ser
humano criou as 24 horas em estado de demência; ou quando pensamos que Deus é brasileiro, só pra dar um
jeitinho de puxar a brasa pra nossa
sardinha... é preciso esperar passar a
hora da onça beber água, admitir que um rato está miando ou um gato
latindo...
É assim,
hoje em dia, que a vaca vai pro brejo,
se não prestamos atenção onde colocamos
nosso boné ou nossa bengala... A questão já não é mais se o boto deflorou a moça, nem se ele vai
casar ou não com ela, mas sim porque ela não quer mais casar, não acredita mais
nessa lorota, nesse lengalenga, e se mantém tranquilamente por cima da carne seca, porque já não
está aqui para disse-me-disse, pura conversa para boi dormir (e não abre mão
de abrir espaços, nem que a vaca tussa em
alemão).
E o homem,
em pleno crepúsculo masculino, está sendo tão obrigado a se virar para sobreviver, que está levando isso até os limites da
cama. Mas, como diz a resistência machista, macho
que é macho, é macho até debaixo de outro macho...
Bem, nada como um dia depois do outro com uma
noite no meio... Vou à luta, porque atrás
vem gente e, na frente, matar um leão
por dia...
Mas se
você achou tudo isso papo de cercar
Lourenço, e se tiver menos de 60 anos de idade, saiba que, quando você vinha com o milho, meu fubá já
estava pronto desde mil, novecentos e
guaraná com rolha...
Não
escrevo mais, porque já não como linguiça
para não dar confiança a porco, daí que vou saindo de leve, porque seguro
morreu de velho e o desconfiado está vivo até hoje.

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