quinta-feira, 2 de março de 2017

A literatura e os bicheiros


ZÉ TRINDADE












Se você quer realmente conhecer um lugar em sua essência entre num bar. Ao contrário de uma igreja, por exemplo, onde nada se fala, tudo se pensa e só Deus dita suas histórias eternas, num bar você fala, você ouve, você vê tudo, tudo que se passa em seu bairro. Um botequim é o alto-falante silencioso de tudo que acontece por ali.

Eu mudo muito de lugar, especialmente quando se trata de botequim. Gosto de mudar de ares, consultar marés, perguntar ao verde como anda o amarelo! Tem um bar aqui perto de casa que é tão vazio, tão pouco frequentado, que o bicheiro tem uma “mesa cativa” e rascunha suas anotações com uma concentração de quem decreta alguma coisa decisiva, como um Juiz, por exemplo.

Dia desses, mais vazio do que o comum porque nem o bicheiro estava ali além de mim, uma senhora idosa, muito simpática, me perguntou sobre o bicho que teria dado de manhã. O errado ali era eu, escrevendo compulsivamente sobre a mesa de um bar pé-sujo. Mas ela também nem se deu ao trabalho de olhar para o meu papel para ver de que se tratava.

O fato é que ela me viu! Ela me perguntou; ela esperava uma resposta... mas ficou a ver navios. Minha vontade era dizer para ela que eu não era escrevinhador, era escritor... não escrevia, refletia... não lidava com palavras de conotação prévia e, sim, com a possibilidade de uma nova comunicação entre o que pensava, o que via e o que ia direto para o meu papel.

Para simplificar, como disse uma vez o poeta Cacaso, “Quanto ao papel da poesia, eu particularmente prefiro o A-4!”...

E o de um bicheiro é pequenininho...


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