terça-feira, 28 de março de 2017

Livros de filosofia X sacolas de mercado












Eu tinha 23 anos de idade quando peguei a estrada, coisa comum entre os jovens que se aventuraram em mudar a sociedade mudando a si próprios, na década de 1970, quando o tema principal de nossas vidas era “paz e amor”.

Dei muita sorte por ser músico e já trabalhando, uma vez ou outra, em editoras.

A música me abriu, nessa época, muitas portas de carros e caminhões para eu seguir em frente na minha jornada até e com um infinito simples: uma sacola com laranjas, bananas e sempre um livro de Jiddu Krishnamurti, filósofo hindu que pregava o vazio da mente para se descobrir novos valores espirituais: sem a ansiedade de uma religião, sem o cárcere de um dogma, sem um Deus preconcebido.

O livro simbolizava para um caminhoneiro, por exemplo, que eu era uma pessoa alfabetizada, ilustrada e bem educada. Então, quando demorava para eu conseguir uma carona, era só eu sentar no chão, puxar um livro e esquecer da vida. Logo, alguém parava e perguntava para onde eu estava indo...

Mas... dando um salto de quase 50 anos, hoje tenho outra marca, outro símbolo de bom caráter: quase todos os dias gosto de chegar em casa não sem antes passar no mercado e comprar alguma coisa.
Para os vizinhos isso é um símbolo de castidade mental, homem dedicado ao lar, cidadão preocupado sempre com a saúde.

Se vejo alguma promoção boa em outro bairro, pego ônibus ou trem e lá venho eu voltando com minhas sacolas de mercado, mesmo que num horário em que as pessoas estejam indo ou voltando do trabalho, com seus trajes sociais e pastas de trabalho.

Muitas coisas que carregamos são símbolos do que estamos querendo...



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