As horas
de Eva
Quando
ela arremessou o olhar, as horas começaram a se transformar em momentos
agradáveis e circulavam pela loja como crianças crescendo rapidamente e se
tornando adultos mais do que maliciosos: as horas eram morenas, cabelos como
crina de cavalo ao vento e cílios como arbustos remexidos por lembranças cada
vez mais recentes.
No setor
de frutas, bem abaixo da parreira do olhar de Eva – a atendente da loja que
mais se aproximava da exata expressão humana feminina –, eu permeava de calor
as líquidas mangas, voluptuosas mangas que exalavam um ardor úmido de desejo e
cumplicidade.
As
mangas, bem junto ao meu ventre, deixavam-na cada vez amarelando mais em fibras
cada momento de um sorriso flutuando em sua face. As mangas, mesmo fora da
promoção da loja, chegavam à minha língua pelo odor feminino do vapor da pele
berrante de minha caça.
Eu acreditava piamente que a
morte tinha sentido absoluto, mas em nossa vida relativa era melhor mesmo
acreditar na existência de uma espiritualidade sã, pelo menos diante de Eva,
que sempre me levava a reflexões para o lado de lá.
Pecado ou não, a questão é
que a morte é natural e o que nos assusta nela é justamente o artifício de nos
crer eterno, principalmente quando beijamos as maçãs de Eva ou desertamos de
sua salinidade.
Na loja, tudo isso que penso
agora escoa pelo chão, tal como as laranjas que o doce vizinho deixou cair e
que abusaram de sua condição de esfera, circundando meus passos como se meus
passos fossem pétalas de algodão.
Os meus dedos contornaram as
curvas de um mamão, enquanto ela – Eva, a vida – se inclinava para pegar algo
no chão e sua curta saia ascendia em seu corpo como as vestes expostas de um
vegetal, a casca de seu corpo, a luz de entre as suas pernas.
Eu mal podia acreditar que
naquele dia, naquela loja, naquele (eu) que estava sendo ali, habitava um
hortidesejo monumental, precioso ao coração tanto mais puro, quanto mais
cafajeste.
Não havia bem e mal se
enlutando mutuamente; havia o desejo interrompendo fronteiras, explodindo
horizontes...
Senti os pelos de um pêssego
querendo mais de meu toque, arrepiando-se por sobre a cabeça de Eva,
permitindo-se ao meu carinho, permeando-se ao meu desejo, e bastaria apenas um
deus do mundo aparecendo ali e eu e ela seríamos deuses também, mas deuses
daqueles que não temem nem são temidos, deuses de si mesmos, aparentando
velhice para no fundo brincarem sem compromisso nenhum com a vida ou a morte,
gozando eternidades apenas.
A rudeza do inhame, raiz
profunda da vida, com sua grossa superfície peluda, entre as minhas pernas
alimentava-se da sutileza de algo erétil, cuja função orgânica é movida pela
partícula anímica que ergue túmulos, berços, ânus, pênis...
Depois de cozido, o inhame
flutua na boca, os seios dela também flutuam, seu olhar ainda tímido também
ferve... e tudo se faz segredo desvendado entre dois legumes, duas verduras,
duas frutas... em uma só existência.
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