4x1 – El camino de
las piedras

Pra mim este gol foi do Clodoaldo, não excluindo a vigorosa conclusão de Carlos Alberto. Na foto, a gente vê o braço esquerdo estendido à frente, o braço direito para trás, o pé direito misturando-se com a multidão e a perna esquerda "escondida" atrás da foto do profissional próximo à conclusão. Bailado? Porrada? Amor à pátria?
Mas o Clodoaldo mostrou para os adversários de quem a bola gostava de ser conduzida, seduzida, abduzida...
Gerson para Jairzinho.
Jairzinho para Pelé. Pelé (que recebera a indicação de Tostão apontando com o dedo que vinha alguém atrás dele) para o míssil Carlos Alberto. E o nosso grito de gol ecoa
ainda hoje. Certos percursos em vida (como dessa bola de pé em pé) são
inevitáveis, parecem mesmo predestinados. Quem de nós, brasileiros com mais de
50 anos de idade, poderia esquecer esse momento?!
Vou dar uma agora de Nelson Rodrigues e poetizar,
metaforizar, vou mitificar as nuances do futebol. Ao contrário do jazz, por
exemplo, que surgiu da pobreza negra do sul dos EUA e dominou o mundo com sua
regência marcantemente renovadora e universal, o football foi inventado pelos ditos fleumáticos nobres ingleses e, hoje,
universalizou-se como o esporte mais popular do mundo.
O toque artístico, inicial, do Gerson mais ou menos na linha
de meio de campo, aliou-se ao furacão Jairzinho que, apesar disso, dava outra
leveza à bola como se um grande urso conduzisse seu filhote amavelmente. E, com
o respeito daqueles que sabem de sua grandeza interior, driblou o adversário
pra direita e, como se soprasse uma esfera flutuante, empurrou-a para Pelé, que
a tudo assistia do alto da meia-lua da grande área.
Dois ou três passos com a bola foram suficientes para que
Pelé, sem olhar para trás, pressentisse que um torpedo traçado por seu destino
verde-amarelo iria surgir ao seu lado.
A suavidade que até ali se manifestara no talento singular
dos craques brasileiros (antes mesmo de Gerson, o médio-apoiador Clodoaldo
havia promovido um baile no círculo central do campo, driblando simultaneamente
uns 3 ou 4 italianos, só pelo simples prazer de bailar prenunciando que a arte
do futebol estava prestes a se consolidar ali) irresistivelmente teve de ceder
lugar ao big-bang da seleção e surgiu Carlos Alberto, que deve ter dado um
susto incrível na bola, coitada, que vinha sendo conduzida com cavalheirismo e
sensibilidade.
Mas ela tornou-se invisível por uns breves milionésimos de
segundo e foi aparecer no fundo da rede adversária. Só faltou espatifar-se
contra o tubo de imagem de nossas velhas televisões dentro de nossas casas.
E a História ficou marcada também porque Carlos Alberto
Torres foi o primeiro lateral direito a transformar-se nos futuros alas e,
vindo de surdina na “antiga” ponta direita, vivificou os deuses que ainda o
invejavam.
O que o Uruguai fez conosco em 1950, fizemos com a Suécia
que pagou o pato em 1958, com o Chile em 1962 e, em 1970, a Itália: vinte anos
depois, foi definitivamente a explosão do grito engasgado do “maracanaço” de
1950.
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